O Brasil chegou ao começo do século XX sem possuir indústria de móveis finos, bem elaborados, com design próprio. Havia os oficiais marceneiros, que eram artesãos hábeis e capazes de copiar qualquer móvel, melhor dizendo, capazes de fabricar qualquer mobiliário que vissem. A indústria era incipiente.
Aracati tinha seus bons artesãos, solicitados para manufaturar mesas, portas, janelas, santuários, baús, tamboretes e para realizar consertos diversos. As famílias de classe social mais elevada e as de categoria médio-alta usavam os serviços dos marceneiros apenas para a fabricação daquilo que não lhes convinha importar.
Desde o século XIX, Aracati se sobressaía dos demais municípios cearenses por ter forte comércio com o exterior e, onde há comércio forte, há famílias abastadas, além daquelas que, trabalhando com elas, ficam bem situadas no contexto social da cidade, por força de suas ligações. Assim, Aracati era considerada uma cidade rica.
Cadeiras para salas de jantar, conjuntos de sofá com cadeiras de braços eram, geralmente, importados da Europa, especialmente da Áustria, Inglaterra e França.
Os móveis das fotos da página (...) compunham parte do mobiliário da casa de meu pai e, por herança, hoje estão nas casas dos filhos mais novos, Stênio e Eduardo.
Importavam também guarda-roupas, cristaleiras e guarda-louças, que logo apelidaram de guarda-comidas. Todos os móveis importados chegavam desmontados e seus parafusos vinham em saquinhos amarrados às peças. Os carpinteiros locais logo ficaram “doutores” em montagem de móveis importados.
Os mais pobres não possuíam cadeiras por serem caras, mesmo as de fabricação local. Usavam banquinhos e caixas de madeira, conhecidas por “caixas de querosene”. A razão dessa expressão é que todo querosene chegado do exterior vinha numa embalagem de tábua de pinho, em formato de caixa, contendo, cada caixa, duas latas de 20 litros. As caixas de querosene eram muito disputadas pelos menos favorecidos, por causa de suas tábuas, que se transformavam em ótimas portas, janelas, baús, malas e outros utensílios.
Na maioria das casas da Rua Grande havia um piano de origem europeia. Até camas eram importadas, especialmente as de dosséis trabalhados. Muitos leitos ingleses tinham, como estrado, uma trama de molas de aço especial que, mesmo com o uso, não deformava, sobre a qual colocavam colchões de penas de aves. Essas penas dos colchões, por serem muito pequenas, davam a impressão de serem oriundas do peito de passarinhos. Também havia os colchões de fabricação local, que eram cheios com um capim fino, do tipo daquele que hoje chamamos “capim-de-burro” (Panicum dactylon, Linn).
FERNANDES, Leônidas Cavalcante. Aracati: o que pouca gente sabe. Rio-São Paulo - Fortaleza: ABC Editora, 2006. p. 26-28.


