As famílias Costa Lima e Felismino foram adversárias ferrenhas na política do Aracati. O chefe político dos Costa Lima era o Cel. Pompeu. O chefe da família Felismino era Antonio Felismino Filho - o velho Felismino.
Na cheia de 1924, Abelardo Gurgel Costa Lima, ainda menino, foi levado pela família para “passar a cheia” num sítio na localidade de Alto da Cheia. Por coincidência, também se encontrava no mesmo lugar e nas mesmas condições o velho Felismino. À tarde, sem nada pra fazer, resolveu o velho Felismino ensinar o catecismo para os meninos que estavam refugiados das enchentes ali.
Depois de vários meninos terem respondido às perguntas do catecismo feitas pelo velho, chegou a hora do Abelardo Gurgel ficar diante do seu inquisidor, que àquele tempo não tinha noção de quem fosse nem mesmo sabia - naturalmente - das brigas políticas de sua família com os Felisminos.
— Quem é o Pai? - pergunta o velho com a voz ainda forte.
— É Deus. Respondeu Abelardo Gurgel.
— Quem é o Filho?
— É Deus.
— Quem é o Espírito Santo?
— É Deus.
— Quem criou o mundo?
— Foi Deus.
— Foi Deus?! — Exclamou o velho com ar de admiração e espanto, e, olhando atentamente para o menino Abelardo, que assustado imaginava ter dito alguma besteira, murmurou:
— Foi Deus?! Hum! Eu pensei que tinha sido seu avô, o Cel. Pompeu.
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Fonte: Pereira Filho, Antero. Assim me contaram. – Fortaleza: 2015. p. 33-34.


