Nas festas de fim de ano a cidade se transformava.
De pacata cidade do interior, ganhava coloridos de cidade grande, pois apareciam os presepes, congo, bumba-meu-boi, fandango, que funcionavam até de madrugada, pois tinham que esperar ou pela missa do galo ou pela da madrugada e depois da missa é que os festejos ficavam mais animados.
Meu avô costumava dar a cada um de nós vinte mil réis, que era uma nota grande e difícil de gastar, pois as guloseimas eram muito baratas.
Com um cruzado, ou seja, quatrocentos réis, podia-se andar de carrossel e comprar ainda um bom-bocado.
Eram famosos os doces fabricados pelas Lopes, que todas as tardes colocavam os vendedores na rua, oferecendo de porta em porta os seus afamados doces, numa cesta de vime coberta com toalha de linho branco de alvura virginal.
Os doces tinham os mais variados sabores, pois os havia de goiaba, de coco, de ata, de graviola, de caju, além dos pastéis de Santa Clara, que se desfaziam na boca.
Além dos doces, havia também os vendedores de pão doce e bolachinhas, da padaria do Zé Freire ou do Julio Scipião, que eram muito elogiados, além da bolacha fogosa, que meu pai adorava, para tomar com café.
Meu pai gostava muito de queijo de qualho com rapadura, que denominava de doce de vaqueiro.
E por falar neste, vem-me à lembrança o Vicente Funil, vaqueiro do meu avô, além do João Raposa, que me levava na garupa do seu cavalo, para comer paçoca feita na hora, com banana maçã.
Nada é melhor do que uma paçoca bem-feita, que nada mais é do que carne de sol com farinha socada no pilão, que é a comida preferida do vaqueiro.
O Funil também tinha fama pelo seu aboio inconfundível, e sobretudo pelo nome das suas filhas que ele chamava com orgulho de Waldemira, Waldelira e Carmelita, que ele considerava nomes iguais, como dizia a toda a gente.
Nos fins de tarde, quando trazia o gado para o curral, o Funil dava um aboio que era de nos levar às lágrimas, tão dolente e tristonho o seu canto e parece que até os animais o apreciavam, pois vinham todos diretos para o aprisco.
Apenas uma vez, quando retornava com o gado e dava o seu aboio, um hidroavião da Condor fazia tomada de campo para aterrissar no rio e, desceu tanto sobre os animais que houve o estouro da boiada, desembestando, em louca correria, pela margem do rio, pois não estavam habituados a tamanha poluição sonora, naqueles ermos da Fazenda de Porto de José Alves, nos idos de 1937.
Todavia, foi bonito o estouro da boiada, malgrado a insatisfação do Vicente Funil, que teve muito mais trabalho para juntar o gado e levá-lo ao curral, naquela fatídica tarde.
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GUIMARÃES, Antônio da Rocha. Memórias de Antônio da Rocha Guimarães. Rio de Janeiro: ZN-Papelaria e Gráfica, 1987. p. 26-27

