Quando ali chegou, vindo não se sabia de onde, o Aracati era a segunda cidade do Ceará. Tinha fábricas e tinha igrejas, armazéns e clubes literários, um porto fluvial e um porto marítimo, dois ou três jornais, quatro bandas de música e 27 pianos, disseminados por 27 salas-de-visitas... Aracati tinha tudo aquilo que faz a grandeza sofisticada de qualquer comunidade numa sociedade de consumo, capaz de atrair qualquer médico pobre em começo de carreira: “Sempre desejei ser médico em uma cidade pequena. Nada de cidade grande”.
Era isso que o animava, quando foi ele ter em Aracati, a convite do alagoano Audálio Costa, seu colega de formatura, em 1906, na Faculdade de Medicina da Bahia. Audálio clinicava entre o povo da terra de Monsenhor Bruno.
Não faltava no Aracati de 1913, sobretudo, o seu povo pobre e humilde, generoso e acolhedor, triste e sofrido, terceiro e quarto planos abaixo, na escala social.
O porto marítimo e o progresso material do Aracati, atraíram o forasteiro e esse submundo social fê-lo criar raízes e ali ficar até hoje.
Contam que, quando ele desceu para terra firme, de bordo de um dos navios da Companhia Baiana de Navegação e Vapor, teve que fazer um pequeno percurso numa embarcação a remo, o trecho de mar que o levaria do navio ao cais. Em companhia do médico baiano viajavam sua esposa e duas filhas menores, sua sogra, um cunhado ainda menino e a empregada da família. Na entrada da barra do rio Jaguaribe, começava a soprar um vento que já dizia para que vinha. As vagas se alteavam e a canoa dançava como uma folha seca à mercê das ondas. Depois, com o vento cada vez mais forte, o mar engrossou e o pânico invadiu a canoa. Um atrás do outro, os “camaleões” de ondas se sucediam, até que um deles quebrou em cima da desprotegida embarcação, deixando a todos encharcados dos pés à cabeça. Foi um deus-nos-acuda. Choro de meninas, gritos de angústia e uma voz feminina: “Valha-me, meu Senhor do Bonfim!” Era a sogra do Dr. Eduardo, com a mão sobre o coração e o pensamento voltado para a colina célebre, na cidade baixa de São Salvador da Bahia.
Era precisamente uma hora da tarde, do dia 18 de outubro de 1913.
Dr. Eduardo conta que, com a água ainda a escorrer pelo rosto, avistara, ao longe, as primeiras torres das igrejas do Aracati.
Jurandir Picanço, que também é médico, e também não nasceu no Ceará e que também daqui não mais arredou o pé, considera aquele banho por aspersão de Eduardo Dias nas águas salobras da foz do Jaguaribe, como o seu segundo batismo – um banho lustral, que o fez para sempre cearense e filho do Aracati.
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FERNANDES, Leônidas Cavalcante. Aracati: o que pouca gente sabe. Rio-São Paulo - Fortaleza: ABC Editora, 2006. p. 182-183.

