Um dos hábitos mais esquisitos do Aracati da minha infância era a missa da madrugada.
Talvez porque, sendo o vigário o Monsenhor Bruno Figueiredo, que já era muito velho, não tivesse mais sono para dormir durante toda a noite até de manhã e acordava a cidade inteira, mandando tocar o sino da igreja do Rosário às três horas da madrugada, hora em que éramos obrigados a nos levantar, para assistir a missa da madrugada.
Nem é preciso dizer que dormíamos o tempo todo, só acordando para sair da igreja e ir ao mercado fazer compras, e quase sempre íamos passar o domingo na Fazenda, na casa do meu avô, atravessando o rio na canoa dos Bezerra, pois ainda não existia a ponte que hoje nos liga à cidade.
O meu avô mandava sempre fazer um cozido completo, enquanto ele almoçava simplesmente um caldo dele, acompanhado de um ovo com alguma farinha, que era servido em tigela de louça branca, que guardo viva na lembrança.
O almoço era sempre às onze horas e o jantar às cinco da tarde.
Depois que o meu avô morreu e minha mãe resolveu morar na Fazenda, acabando com a loja da cidade, teve um grande problema, pois tendo a casa do meu avô ficado abalada pela última enchente, porque o rio cavara enorme buraco em sua volta, que ameaçava desmoronar a casa, o que veio realmente a ocorrer, mamãe foi obrigada a construir a sua própria residência.
Viúva, com filhos para criar, não tendo recursos suficientes para o empreendimento, mesmo assim resolveu iniciar a construção.
Primeiro, decidiu ela própria fazer o tijolo e a telha, materiais indispensáveis para a empreitada.
Dispondo de lenha para a caieira, barro e água para a olaria, mandou cortar lenha para a primeira caieira e cavar o barro para iniciar a fabricação.
Depois de estar o barro devidamente preparado, teve início a confecção dos tijolos e telhas, sendo estas do tipo canal e aqueles do tipo maciço, sendo que nas telhas, várias moças da cidade escreveram o seu nome, quando o barro ainda mole e depois de queimado na caieira, ficaram os nomes indelevelmente gravados.
Soube disso, depois que voltei do internato, ao olhar para o telhado de telha vã, deitado na rede da sala de jantar, e ver aqueles nomes gravados nas telhas.
Lembro-me de um nome que aparecia mais vezes, que era o da Marisa, filha do Alfredo Gurgel Valente, que tinha sítio na margem direita do Jaguaribe, lá perto do Fortim, já quase na barra.
Outras moças que também apareceram durante a construção, também deixaram seus nomes gravados no telhado, como os fabricantes de telhas costumam escrever o nome da sua firma oleira.
Segundo o nosso amigo Armando Praça, português que era gerente da Casa Pernambucana, que funcionava nos baixos do nosso sobrado de azulejo e depois tornou-se próspero comerciante com o seu próprio comércio no Beco do João do Rego Falcão, aquela casa feita por mamãe representou o poder da vontade.
Com efeito, contava mamãe, que no dia que deu início à olaria, tinha na bolsa apenas um cruzado, ou quatrocentos réis e muito crédito na praça.
O fato é que a casa foi construída na seca de 1932 e ajudou muito retirante a ganhar, pelo menos para não morrer de fome, o seu próprio sustento, ficando com 8 metros de largura por 30 de comprimento, com um pé direito de 6 metros de altura, o que a tornava muito fresca, tendo alpendres de ambos os lados, para as redes acolhedoras, causando admiração a todos pelo seu grande tamanho.
Nos fundos da casa foi construído um poço puxado por catavento americano, com um grande tanque ao lado, para os banhos da garotada e que também servia de aguada para o gado leiteiro.
Meu pai, Joaquim Nogueira Guimarães, era de Morada Nova, cidade próxima de Aracati e veio a esta trabalhar com seu tio, Mamede Nogueira Pontes, que era comerciante altamente conceituado, estabelecido na rua do Comércio, como quase todas as firmas da época, que era a rua principal, morando nos altos da loja, que era no beco de Jacques Klein, com fundos para a rua Coronel Alexandrino.
Depois de algum tempo, meu pai separou-se do tio Mamede e abriu o seu próprio negócio, na loja do sobrado vizinho a Jacques Klein, na mesma rua Grande, que era muito assobradada, morando a maioria dos comerciantes nos altos, negociando na loja nos baixos, como era costume na época.
Era filho de Joaquim Ribeiro Guimarães e Ana Ribeiro Guimarães e neto de Custódio Guimarães, meu bisavô, constando que um seu ancestral próximo, político de muito prestígio em Morada Nova, em qualquer solenidade principal, desfilava debaixo do pálio, como se fora o Santíssimo Sacramento e chamava-se Ayres. Tenho muitos parentes em Morada Nova, pois meu avô casou-se três vezes.
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GUIMARÃES, Antônio da Rocha. Memórias de Antônio da Rocha Guimarães. Rio de Janeiro: ZN-Papelaria e Gráfica, 1987. p. 21-23

