Canoé era uma imensa salina, no estuário do Rio Pirangi, que exportava sua produção pelo ancoradouro natural existente no então Distrito de Fortim, hoje município. O sal de cozinha é importante na alimentação, não só por dar sabor à comida, mas também por suprir o corpo de elementos essenciais e para fins industriais, como veremos a seguir.
O Sal e a Tireóide
O que comumente chamamos “sal” é uma substância, na forma cristalizada, do cloreto de sódio, empregada na alimentação para dar maior sabor ou para conservação, principalmente de carnes e peixes. Quando não havia geladeira, as carnes eram conservadas para consumo de duas maneiras: a) a salmoura, mais utilizada, nada mais era que sal dissolvido na água, em alta concentração, e colocada em depósitos onde eram guardadas as carnes; b) em forma de carnes secas ao sol e vento, laminadas e salgadas para deixá-las “enxutas”, impróprias para a vida microbiana.
O baixo teor de sal no corpo dos animais de sangue quente é altamente prejudicial e até perigoso. O sal, além da aplicação direta nos alimentos, também é utilizado na indústria química para a fabricação de uma infinidade de produtos, sendo os principais: soda cáustica, barrilha, plásticos etc.
Há uma lei federal que obriga a indústria salineira a colocar um percentual de iodeto de potássio no sal, por ocasião da moagem para consumo humano, a fim de que todos os brasileiros consumam um pouco de iodo, para manter normais as funções da glândula tireoide. O motivo é que, em muitos solos brasileiros, falta iodo, principalmente na Região Amazônica e nos estados da Região Centro-Oeste, onde é comum encontrarmos pessoas com pescoço inchado, conhecido como bócio ou “papo”. Os hormônios produzidos por essa glândula consomem iodo, daí a razão de existir a lei para iodar o sal.
Produzindo Sal
As primeiras referências à produção de sal no Nordeste foram feitas por frei Vicente de Salvador, em 1627. As condições ideais para a produção de sal são: 1) temperatura elevada; 2) pluviosidade reduzida; 3) baixa higrometria, ou seja, baixa umidade relativa do ar; 4) ventos secos e constantes. Canoé tinha todas essas condições.
No estuário do Rio Pirangi, existem vários quilômetros quadrados de terras planas, ótimas para salinas. As pessoas antigas diziam que Canoé era a maior salina natural do Brasil. E realmente o foi, por décadas, quando era enorme a sua produção de sal, com baixo custo.
O sal de Canoé tinha 98% de pureza e sua produção era de 53 kg/m², enquanto o produzido no Sul do país tinha 90% de pureza e produção de 22 kg/m².
Uma pequena via férrea fora construída ligando a referida salina ao Fortim, cuja margem esquerda do Rio Jaguaribe é muito alta, de onde uma calha permitia despejar sal a granel dentro dos navios ou grandes barcos.
A cristalização do sal se faz por evaporação da água do mar, que é recolhida em tanques rasos, apelidados de “baldes”, que têm grande superfície (100 m × 80 m cada balde) e paredes de argila com cerca de 50 cm de altura. Para se ter ideia da evaporação no Ceará, o DNOCS afirma que a média nos açudes é de um centímetro por dia na estação seca. Com água do mar, por ser na praia, ter muito vento, ser plano e sem vegetação, a evaporação na salina ainda é mais rápida.
À proporção que vai evaporando, a água com sal vai ficando mais concentrada, mais salgada, já que evapora somente a água pura; o sal não sobe. Quando atinge uma certa concentração salina, a água é bombeada para os tanques chamados de “chocadouros”, onde fica em repouso para haver a cristalização do cloreto de sódio existente na água do mar.
Com o calor e a evaporação, o sal cristaliza nos tanques, formando uma camada que varia de 5 a 15 cm de espessura. O industrial salineiro sabe o momento em que terminou a cristalização e ordena a colheita do sal que, nesse momento, é chamado de “sal verde”.
Esse sal é levado dos tanques para uma área plana e empilhado em montes, denominados “pirâmides”, onde passa vários meses — às vezes até oito — para que escorram as impurezas e o excesso de água. Depois de bem escoada a água, o sal é comercializado grosso para as indústrias ou para o consumo de animais. Se for industrializado para o uso culinário, no momento da moagem terá que ser adicionado o iodeto de potássio, por força da lei. Por isso é que, nas embalagens dos sacos de sal que compramos, está escrito: “sal iodado”.
Canoé era considerada por todos uma boa fonte de impostos do município de Aracati, no início do século XX. Por ocasião da grande cheia de 1924, quando a barra do rio assoreou e não permitiu que os navios entrassem até o Fortim para receber sal, Canoé entrou em colapso, já que não poderia escoar sua produção por absoluta falta de estradas. Apenas pequenos barcos à vela embarcavam sal no Fortim.
Quando abriram estradas para caminhões, uma multinacional do Grupo Rockefeller já se instalara no Rio Grande do Norte, onde até construíra uma ilha artificial para o embarque do sal. E mais: suas salinas foram mecanizadas e o custo de produção desceu vertiginosamente, ficando, na prática, sem competidor. Até a Companhia Nacional de Álcalis lá instalou sua maior indústria de transformação de sal.
Além de tudo o que foi dito sobre o declínio de Canoé, temos que considerar um longo artigo do jornal O Povo, edição de 07.11.1928, que diz, entre outros argumentos:
“O governo cearense consentiu, sob criminosa indiferença, que o Conde Pereira Carneiro comprasse Canoé por quarenta contos, a fim de trancá-la, com receio que a sua exploração matasse os interesses de sua Companhia de Comércio e Navegação nos portos do Rio Grande do Norte.”
Hoje, faz pena ver a produção de Canoé. Não parece a Canoé dos tempos áureos.
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FERNANDES, Leônidas Cavalcante. Aracati: o que pouca gente sabe. Rio-São Paulo - Fortaleza: ABC Editora, 2006. p. 189-192.


