Até onde os recônditos da memória podem trazer a lume as lembranças primeiras do homem? No meu caso, elas se iniciam em tenra idade, porque, tendo o meu pai morrido em julho de 1924, poucas são as recordações que tenho da sua figura humana. Lembro-me, vagamente, de quando acendia o lampião de carbureto, na nossa casa da Rua do Comércio, 210, em Aracati, Estado do Ceará, às 18 horas, ou quando cortava fumo com seu afiado canivete da marca Corneta, para encher o seu cachimbo, que fumava após o jantar, balançando-se na rede branca de varandas rendadas, armada num canto da sala de jantar, próximo à cozinha e antes de eu ser chamado para deitar.
Todavia, tenho lembranças mais vivas da cheia que ocorreu no referido ano de 1924, em que o Jaguaribe invadiu a cidade de Aracati, desalojando todos os seus habitantes, que, no Carnaval passado, haviam cantado a marchinha que dizia:
“Vamos pro mato morar, laiá /Vão marchando que eu já vou”... ficando grande parte da população abrigada debaixo dos cajueiros e oiticicas, por absoluta falta de terem aonde ir, durante quase um mês.
Lembro-me que estávamos dormindo na casa da nossa tia Teté, que era vizinha da nossa já apontada, e, quando acordei de manhã, vi os penicos boiando como verdadeiros barquinhos de papel, que a estes se assemelhavam até pela cor branca da louça de que eram feitos. Levantei-me assustado e coloquei os pés dentro d’água, pois o rio Jaguaribe havia invadido a nossa maior privacidade, e o que nos valeu é que dormíamos na rede, que, sendo alta, não foi atingida pela inundação.
Aí, então, começou o lufa-lufa de apanhar tudo o que fosse possível salvar da enchente, para colocar no barco que meu avô Quincas havia providenciado, para nos levar à nossa fazenda, que fica na margem esquerda do rio e que, na sua parte mais alta, não é atingida pelas inundações periódicas. Em 1917, havia ocorrido outra cheia de igual porte, quando várias pessoas da família Figueiredo morreram afogadas, ao passearem de barco no perigoso rio, quando cheio demais, e o mastro da embarcação tocou no fio telegráfico, fazendo a barca virar, e os que não sabiam nadar foram arrastados pela correnteza, no lugar denominado Tomé.
Na cheia de 1924, muitas famílias eram embarcadas pelas varandas dos sobrados, tão alta estava a água dentro da cidade, e todos tinham que correr o mais depressa possível para salvar a própria vida, antes que começassem os desmoronamentos e os consequentes redemoinhos por eles causados, com risco de vida para os que estavam próximos. O difícil, além de sair da cidade inundada, era transpor a correnteza violenta, causada por um rio de 500 metros de largura habitualmente, transformado numa largura de mais de 2.000 metros.
Para evitar essa grande correnteza, era preciso sair com o barco pela parte mais oeste da cidade, no lugar denominado Cruz das Almas, onde havia o campo de futebol, para cruzar o rio na direção do Tomé ou Barreira Vermelha, onde hoje fica a ponte Juscelino Kubitschek, com 500 metros de largura, para que o barco, empurrado pela grande corrente, aportasse no Porto de José Alves, onde fica a sede da fazenda do meu avô, hoje nossa e dos nossos primos Maria, Lucimar e Armando, filhos da tia Teté, e dos meus irmãos José e Helena, que lá moram até hoje.
Para isso, estávamos entregues à perícia do timoneiro, que ficava encarregado do leme e da força dos remadores, que, em número de oito, quatro de cada lado do barco, mantinham a sua proa apontada para o Tomé, no sentido de não sermos arrastados para a Barreira Preta, lugar onde a correnteza era mais acentuada, dada a grande curva que o rio faz nesse local, onde poderíamos até soçobrar.
Nossas tias-avós, irmãs do meu avô Quincas, chamadas carinhosamente Mimim, Mina, Mindoca, Cá e Flor, apelidos de Hermínia, Guilhermina, Felismina, Ricardina e Florinda, iam juntamente com minha mãe, tia Teté e Leonor, ajoelhadas no barco, rezando para que a travessia se fizesse a são e salvo, pois, além dos adultos, eram oito crianças, quatro meninos e quatro meninas, além dos empregados e do meu avô.
Felizmente, conseguimos atravessar o rio e aportamos no lugar denominado Alto da Cheia, onde iríamos passar uma alegre temporada de férias, fato em que se converteu a cheia para as crianças, pois, para os adultos, era um grande transtorno, mas, para as crianças, era motivo de aventura e de uma temporada fora da rotina, pois até o horário rígido de dormir, que era às 19 horas, foi relaxado para as 20, apenas com a falta da tia Belinha Souto, amiga da minha mãe, que ia todos os dias nos contar histórias na cidade, mas que, com a cheia, teve que ir para o seu sítio Cajueiro, onde havia também um Alto para as cheias periódicas que afligem a centenária cidade de Aracati.
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GUIMARÃES, Antônio da Rocha. Memórias de Antônio da Rocha Guimarães. Rio de Janeiro: ZN-Papelaria e Gráfica, 1987. p. 9-11.


