O sobrado em que morávamos em Aracati era imenso, com fundos correspondentes para a rua da Parada, atualmente Santos Dumont. Por que será que o nome das ruas muda tanto? [...]

No nosso sobrado havia um imenso quintal, como aliás em todas as casas de antigamente, onde jogávamos futebol e ainda cuidávamos de um bonito jardim, em que cada um de nós tinha o seu canteiro para cuidar e aprender a gostar das plantas, como mamãe ensinava.

Um canteiro era um triângulo, outro uma meia lua, outro uma circunferência. O meu era o triângulo e neles plantávamos rosas de várias cores e perfumes, como a rosa menina, rosa alexandrina, rosa dália, com os coloridos os mais diversos desde a cor branca, passando pelo vermelho e amarelo até a cor quase negra, que cultivávamos com todo o cuidado, para agradar nossa mãe.

Além do jardim, havia ainda no quintal um frondoso pé de sapoti e uma imensa laranjeira, onde os passarinhos costumavam fazer ninhos. Um dia resolvi cutucar um desses ninhos com uma vara e qual não foi o meu espanto, quando vi cair de dentro dele um casal de rolinhas ainda implumes. Fiquei desesperado e saí correndo de porta a fora, gritando que havia cometi do um grande pecado e por isso queria confessar-me. Corri até à igreja do Bonfim, onde encontrei o padre Edgard e prostrado aos seus pés confessei o meu ornitocídio. Depois de convenientemente perdoado, voltei para casa mais confortado e daí pude concluir qual o valor da confissão, para o refrigério da alma humana.

Depois da morte do meu pai, mudamos daquela casa térrea da rua do Comércio, para o sobrado vizinho ao de azulejo[1], e aí moramos até que fomos para o internato. Eram salas imensas com assoalho de tábuas corridas muito largas, onde se podia andar até de bicicleta, tão grandes eram os espaços.

Na sala, a minha mãe conservava o seu piano de solteira, que meu avô importara diretamente da Alemanha, onde começamos a aprender os primeiros solfejos, até a nossa ida para o colégio interno. A mobília da sala de visitas era austríaca.

Depois de rapaz, naquele mesmo piano, a nossa amiga Zeneida Gurgel Nogueira costumava tocar aos domingos, acompanhando os cantores entre os quais me incluía, nos saraus familiares.

Aliás, no Aracati, quase todas as casas tinham piano e quase em frente ao nosso sobrado morou o pianista Jacques Klein, filho da D. Gasparina, que fez sucesso universal, deslumbrando os auditórios europeus com os seus concertos.

No nosso sobrado, havia um grande sótão no terceiro andar, que constituía o nosso dormitório. A minha cama era de grades de ferro e uma noite acordei sobressaltado, porque a cama balançava de modo incrível. Desci correndo para o primeiro andar e as xícaras balançavam, também, no guarda-louças. Fomos para a rua e aí estavam todos, alguns de camisola e pijama, comentando que houvera um tremor de terra.

Um dia aconteceu um acidente no sobrado. Estávamos brincando de pegar e corríamos feito loucos pela sala toda, para não sermos apanhados uns pelos outros. O meu irmão José corria atrás de mim e eu, para não ser apanhado, tentei escapar fugindo pela escada da cozinha, que era cercada de grades de madeira, com um portão. Abri o portão e comecei a descer a escada, mas José jogou o portão nos meus calcanhares e eu despenquei escada abaixo, até o chão, onde quebrei a testa de encontro ao cimento do piso.

Fui levado imediatamente ao dr. Campelo, médico que morava na nossa frente, no mesmo sobrado onde tinha sido a loja do meu pai. Dr. Campelo, teve que dar pontos na minha testa, e lembro-me até hoje, da cócega que senti, quando os pontos foram retirados dias depois.

 

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GUIMARÃES, Antônio da Rocha. Memórias de Antônio da Rocha Guimarães. Rio de Janeiro: ZN-Papelaria e Gráfica, 1987.  p. 18-20



[1] Sobrado onde nasceu Adolfo Ferreira Caminha.