No mesmo dia do casamento seguiram, em carruagem, para a Tijuca, onde foram morar. Ia fazer um ano. Leonor, porém, aborrecia-se naquela solidão, achava “aquilo” tristíssimo, horroroso, de meter medo, principalmente no inverno, quando a neblina descia das montanhas, barrando a paisagem, melancolizando céu e terra, desdobrando uma grande mortalha branca sobre o arvoredo e pelos caminhos... Tinha decidido horror ao frio, à umidade, à chuva, nascida e criada no Rio de Janeiro, “fluminense até morrer”, gostava, – por que não? – de sol quente, de paisagens límpidas, de céus azuis, de horizontes claros! Não sonhara nunca numa viagem à Europa, justamente por isso – com medo à neve, ao frio glacial. No Rio de Janeiro, no “seu belo Rio de Janeiro”, o gelo era um luxo aristocrático e a estufa, um mito, um verdadeiro mito...
— Se ela gostava mais do verão que do inverno? Sem dúvida! Queria sol, dias de sol, muitíssima luz, atmosfera rúbea, incandescente, de fornalha. “O calor é a vida...” — Mas, quando pensava em deixar o seu ninho na Tijuca (porque era um ninho a casa que o marido alugara), quando imaginava deixar os seus cômodos, ir-se embora dali, do pitoresco chalezinho, onde fizera sua lua-de-mel (por sinal bem amarga!...), vinha-lhe uma pena, uma saudade, uma dolorosa e nostálgica tristeza...
Guimarães ria:
— Isto aqui, minha flor, não é só uma boa casa, isto aqui é um céu aberto, uma bem-aventurança; fica-se perto dos banhos de cachoeira e longe de rumores. Não nos falta coisa alguma: clima deliciosíssimo, água excelente, jornais pela manhã, como na cidade, piano... Queres vida melhor?
Não, ela não queria vida melhor; mas “a gente” não ia ao Lírico, “a gente” não frequentava salões, não passeava, não tinha amizades, vivia um isolamento sombrio do reclusa... Por força!
Guimarães achava graça e tornava a rir, soprando o fumo do charuto:
— Pelo amor de Deus, filha! Quem é que tem saúde para consumir nos bailes, nos teatros ou em passeios fora de norma? Isso de amizades é uma história, digo-o eu, um engano. Cada qual deve procurar viver a seu modo, longe de tumultos e de apoquentações.
E, quebrando a cinza, — dogmaticamente:
— Olha, eu bem sei o que são amigos...
Leonor convencia-se facilmente e os dias iam passando numa quietação arrastada, muito longos... O marido, negociante de joias, era homem de gênio calmo, — nem muito velho, nem muito moço —, inimigo da sociedade, cheio de experiência e de filosofia; casara por dizer que casara, não que verdadeiramente amasse a mulher; do mesmo modo que encontrara Leonor, podia ter encontrado outra esposa em igualdade de condições, bela também, com os mesmos olhos negros, com a mesma dentadura fina, — educada e de família. Bom marido, porém, excessivamente bom, amável, carinhoso, tratando a esposa com fidalga generosidade, interessando-se por ela como pelas joias do seu escrínio de ourives. Preferia morar na Tijuca porque ficavam longe, ele e ela, das obrigações sociais, de compromissos e de amigos perigosos, e também por uma questão secundária de clima. Viviam muito bem, muitíssimo bem, sem filhos, mesa abundante, vinhos caros, e um sossego d’alma, uma paz de espírito que ele, Guimarães, não trocaria por um reino de ouro. Entretinham relações de amizade com a família de um italiano chamado Pisacane, retratista a óleo; — isso mesmo “porque era gente fina, e, sobretudo, honestíssima”. Leonor dava graças a Mme. Pisacane por já não ter morrido de aborrecimento.
Guimarães desapontava sem cólera:
— E o piano, filha, o piano há de ficar por aí eternamente fechado como uma sepultura, como uma coisa inútil?
— Ora o piano!...
Sim, o piano; como não? Estava se estragando, se empoeirando, à falta de pianista, no canto da sala. Era preciso tocar!
Ela bem que dedilhava seus trechos de ópera, suas partituras; mas aquilo ia cansando...
Gênio esquisito, o de Leonor. Não era, como poder-se-ia julgar superficialmente, uma histérica, uma fin-de-siècle; nem nunca sofrera o mais leve desequilíbrio nervoso. Bela e forte, carnação magnífica, — uma boca esplêndida e olhos vivos de judia, rasgados em diagonal. Havia, porém, algo estranho em seus caprichos, nas suas preocupações, no seu formoso olhar quente e no modo frio, na quase indiferença com que se chegava ao marido. Talvez não o estimasse como devia, talvez algum segredo conjugal misterioso...
Entretanto, ela nunca pensava em outro homem; não gostava mesmo dos homens – odiava-os agora, depois do casamento.
Ultimamente, não sabendo como encher as horas, Leonor teve “uma ideia feliz, uma excelente ideia”: ensinar piano ao filho do retratista, o louro Cesar, um milanês de olhos azuis e rosto de mulher, menos que adolescente, mais que criança, – grande vocação musical entrevista pela esposa de Guimarães.
O joalheiro sorriu àquela ideia extravagante, mandou um olhar ao piano, olhar que não queria dizer coisa alguma, e, sorrindo, concordou: — Pois muito bem. O Cesar morava perto; escolhesse uma hora: meio-dia por exemplo; as lições podiam começar ao meio-dia...
— Mas — acrescentou — donde te veio essa lembrança?
— Ora donde me veio... Do acaso, do meu próprio isolamento. Uma lembrança como outra qualquer... É um meio de não se enferrujar o piano...
E começaram as lições uma segunda-feira preguiçosa, modorrenta e cheia de neblina.
Ficavam os dois, Leonor e o pequeno Cesar na sala, horas e horas, ao piano; ela em pé, religiosamente, ele sentado na banqueta de mola, ouvindo-lhe as explicações, rosto a rosto, dedilhando escalas de principiante, o olhar, o meigo olhar azul fixo na brancura ebúrnea do teclado. Falavam alto, riam, às vezes, na pequena sala aristocrática, onde penetrava um friozinho úmido agreste. Havia pausas no correr das lições, porque – “era preciso descansar, ir com método, piano, piano...”
Sentavam-se na otomana de veludo, macia e quente, folheando álbuns, um amoroso aconchego de mãe e filho, até que chegasse a hora de Cesar partir.
Não tinham cerimônias. Ela quase sempre se apresentava em cabelo negligé, à fresca, um chale de seda no ombro “para resguardar o pescoço de algum golpe de ar”, nos seus trajes domésticos de mulher que aborrece etiquetas e convenções.
— Demais, havia de ter graça, havia de ter muita graça a senhora dona Leonor preparar-se de fond en comble para receber o senhor Cesar!
— Em todo caso, ponderava Guimarães, não segue-se que te devas apresentar em chambre!... As crianças também reparam...
— Mesmo assim, não havia mal — gracejava Leonor.
O ourives ficava sério. Decididamente sua mulher não tinha um dedo de juízo. — Mulherzinha incompreensível!
O pequeno ia fazendo progressos admiráveis na música. Leonor o elogiava sempre em bilhetes a Mme. Pisacane ou em presença do pai dele, quando o retratista aparecia. — Uma vocação artística invejável! Que facilidade na execução! Breve ele é que seria o mestre, ela a discípula...
— Não é assim, ó Cesar? dizia passando a mão muito branca no cabelo ideal do italiano.
Ele sorria, comovido, baixando os olhos.
No fim de algum tempo, Leonor já o esperava como noiva que espera o noivo, inquieta, sobressaltada, em alvoroço de felicidade n’alma, prelibando, talvez, o contato do rosto macio do pequeno que ela, agora, por fim, beijava, quando o tinha perto do seu, durante o exercício, às vezes no mais caloroso da lição, em frenesis histéricos. Esperava-o à janela, impaciente, o olhar chamejando volúpia, o coração aos pinchos. Era um desejo vago e misterioso o que ela foi sentindo pelo italiano, um desejo louco de o abraçar, de o estreitar contra o peito num furor lúbrico extraordinário. A inocência dele, os seus braços polpudos e femininos, o conjunto delicado e meigo de suas feições — rosto imberbe e liso, olhar cor de céu, boca escarlate destacando sensualmente na alvura da pele —, embriagavam-na. Queria-o ainda mais, queria-o de enlouquecer, quando o comparava ao marido, a esse Guimarães egoísta e prosaico, para quem não havia mulher bela, — homem seco, frio, indiferente ao amor, sem entusiasmos, que fazia consistir a vida conjugal num platonismo ridículo, obrigado, cheio de inércias...
Faltava-lhe, no entanto, a ela, coragem para macular a alma casta de Cesar, iniciando-o nos segredos do amor, e isto a exasperava.
Parecia-lhe, às vezes, descobrir no olhar ingênuo do discípulo um fulgor estranho, um raio de luz providencial, caricioso e perverso. — Estaria iludida?... Sim, decerto, uma criança não vai olhar para uma senhora com intenção desonesta...
Quis provocá-lo um dia. Tinham acabado a lição. Sentados, lado a lado, na otomana de veludo grená — ela meio derreada, o braço no pescoço de Cesar, mirando-o de frente, com um jeito gracioso na cabeça, — ele à esquerda, bebendo-lhe, boquiaberto, as palavras, ouvindo a música de sua voz de um timbre cantado e doce.
— Mas, então, não queres casar? — dizia Leonor, envolvendo-o de ternura, rindo.
Casar, ele? Estava muito criança ainda para pensar nessas coisas... Primeiro queria saber muito bem música, estudar, instruir-se; depois... talvez...
E o italiano sentiu a face arder; tênue ruborzinho espalhou-se-lhe na alvura do rosto, quando, ao erguer a vista, deparou com o olhar faiscante de Leonor.
Nesse rápido encontro de olhares, mestra e discípulo estremeceram, como se os houvesse tocado o mesmo fio elétrico. A esposa de Guimarães ia se deitando a perder; corria-lhe nas artérias uma chama viva de fogo; a palavra morria-lhe seca nos lábios; toda ela vibrava, sacudida pela força prodigiosa do sangue; mas, ao mesmo tempo, apoderava-se dela um vago sentimento, um como pudor instintivo; e dessa vez, como das outras, o discípulo retirou-se ignorando a verdadeira origem de todas as fraquezas humanas...
Continuaram as lições de piano.
Leonor tinha momentos de desespero ao ver a imobilidade, o frio desinteresse com que Cesar recebia seus beijos e seus abraços. As lições iam-se-lhe tornando suplícios. Como acordar naquela alma o desejo da carne, um movimento sequer de ternura impudica? Sempre o mesmo respeito, a mesma indiferença!... Entretanto, seu coração de mulher estava cheio de imagem de Cesar; acordada ou dormindo, via-o sempre, louro e casto.
Amava-o, decerto, inexplicavelmente...
E quando, um dia, ele disse-lhe que se ia embora para a Itália, que o pai resolvera mandá-lo estudar em Roma, — Leonor quase teve um desmaio. Ir-se embora, ele, o seu discípulo amado, a sua única alegria naquele deserto da Tijuca!... Que lembrança do Sr. Pisacane mandar o filho para Roma, — que triste lembrança! Agora, que seria dela? Iam voltar os dias de solidão, os longos dias de aborrecimento, sem o consolo de um olhar amigo, sem a esperança de um afeto novo...
— Amanhã venho me despedir, murmurou o pequeno. Será a última lição...
Sim, a última lição... Quanto lhe custava, a ela, ouvir essas palavras! Um ano quase de terna convivência, um ano!
A esposa de Guimarães não pregou olhos toda a noite. Mil vezes teria sonhado com o pequeno, se mil vezes houvesse adormecido; mas, era impossível esquecê-lo, absolutamente impossível...
No dia seguinte, muito cedo, ela já o esperava, maquinando planos de despedida sentimental, ideando seduções irresistíveis.
Como de costume, logo depois do almoço o ourives desceu para a cidade. Leonor não quisera almoçar; e, assim que o marido sumiu-se no fim da rua, lá baixo, ela recolheu-se ao seu quarto de casada; recolheu-se e, tendo fechado cautelosamente a janela, deitou-se, cabelo solto, em camisa – como se fosse mergulhar num sono profundo e reparador. – Havia de receber o italiano ali, no seu boudoir, queria o submeter a uma última prova.
O quarto era no primeiro andar – bela peça forrada a papel claro, com janela para as montanhas, e onde se respirava uma atmosfera sensual de perfumes entontecedores. Decorava-o um luxozinho burguês; psyché de cristal, ostentando sua polidez imaculada de objeto custoso; larga cama inglesa com florões de ouro, sob um dossel de rendas, litografias e bibelots...
Leonor tinha preparado a comédia. Dentre a brancura dos lençóis, o seu busto ressaltava, magnificamente desalinhado; o pescoço nu, idealmente alvo, pedia beijos criminosos; o cabelo punha uma nódoa forte no linho do travesseiro; sentiam-se-lhe as palpitações do seio.
Deitada sobre o flanco, vendo-se na psyché, que ficava exatamente defronte do leito, a esposa de Guimarães tinha um ar estudado e provocador de bacante recatada...
Pela primeira vez sentiu o discípulo um vago desejo de amor – ele, – que até ali não me compreendera essa palavra repisada e banal; pela primeira vez desejou ser homem, verdadeiramente homem. Veio-lhe uma grande saudade de deixar, – quem sabe até quando? – aquela casa onde tantas e tantas vezes fora aprender música, e cuja lembrança fazia-lhe, agora, bater o coração. Um sentimento de profunda melancolia tapou-lhe a boca; umedeceram-se-lhe os olhos.
— Não vale a pena chorar, disse meigamente Leonor. Um homem nunca deve se mostrar fraco...
E num ímpeto, erguendo-se dos lençóis, tomou entre as mãos a cabeça loura de Cesar, loura como um sol, cobrindo-a de beijos... Decorreram minutos de um vago silêncio enternecido. Ouvia-se, longe, um doce rumor de cachoeira. A psyché imobilizava-se discretamente, ostentando sua polidez cristalina de objeto custoso, onde, agora, refletia-se comovida a cena de amor ideal...
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FONTE: Contos. Adolfo Caminha. – Fortaleza: Editora UFC, 2002. p.43-51


