Naquela noite, fui mais cedo para o meu quarto. Meu espírito parecia inquieto, perambulando por rotas que não se encaixavam nem no presente nem no passado. Adormeci. Sonhei que a ciência humana havia alcançado o inalcançável. Meu corpo foi congelado e mantido vivo por capricho de alguma entidade que não me foi dado conhecer. Fui simplesmente colocado para dormir por cinquenta anos. Quando acordei, estava em Aracati, e o calendário indicava o ano de 2076.

A primeira impressão não foi de surpresa. Foi de silêncio. Um silêncio incomum, distinto daquele das madrugadas da minha juventude, quando o vento passeava pelas ruas antigas e dialogava com as fachadas dos sobrados. Era o silêncio de quem desperta num mundo onde não conhece mais ninguém.

Ao entardecer, sentei-me em frente à Igreja Matriz. As torres continuavam apontando para o céu, relativamente conservadas. Naquele momento, entendi algo que jamais havia compreendido antes. Somos apenas inquilinos de uma cidade por um período predeterminado. Ela passa por nós como as aves de arribação. Chegamos. Construímos. Amamos. Competimos. Desejamos. Depois, partimos. A cidade, porém, continua. Talvez mais bela. Talvez mais triste.

Quando a noite chegou, o vento começou a soprar. Imediatamente o reconheci. O Vento Aracati da minha infância era o mesmo. Familiar. Agradável aos meus sentidos. O mesmo que refrescava as tardes quentes, movia as folhas das carnaubeiras, animava casais apaixonados escondidos nos becos escuros, boêmios atravessando madrugadas e crianças correndo descalças pelas ruas de areia. O vento que atravessava os séculos sem se desgastar.

Fechei os olhos. Então percebi que toda a verdadeira felicidade da minha existência havia acontecido ali. Não nos cargos que ocupei. Não nas conquistas que alcancei. Não nos elogios que recebi. Mas naquela infância humilde vivida em Aracati. Nas águas do Jaguaribe. Nas ruas ao anoitecer. Nas conversas com os mais experientes. Nos sinos dos templos. Nas rezas. Nas procissões sinuosas. Nas amizades que o tempo apagou. Nos devaneios de menino.

Se eu pudesse formular apenas um desejo, não pediria riqueza, nem glória, nem mais cinquenta anos de vida. Pediria apenas uma tarde de retorno. Um único dia. Daquelas tardes em que a felicidade nos era oferecida descalça e silenciosamente, sem que percebêssemos que um dia sentiríamos tanta falta dela.

Foi então que me ocorreu um antigo verso:

Trago no peito o sabor de uma saudade, 

cicatriz de uma amizade que tão cedo vi morrer.

 E percebi que a saudade não é apenas recordação. É uma forma de permanência. É o lugar onde continuam vivendo as pessoas, as ruas e os dias que o tempo apagou.

Olhei novamente para a Aracati daquele tempo. Ela tinha beleza, modernidade e prosperidade. Mas não era a minha cidade. Os sobrados haviam desaparecido. Dos prédios históricos, apenas o da Câmara Municipal permanecia. As igrejas estavam quase todas intactas; a do Nicho, porém, transformara-se em restaurante. Não encontrei a Praça Dr. Leite nem a Praça da Coluna. A minha Aracati continuava existindo apenas dentro de mim. Tombada apenas para mim. Situada nas sombras da Rua Grande, nas margens do Jaguaribe, no cheiro das primeiras chuvas, nas vozes daqueles que partiram.

Então, senti uma estranha tristeza ao observar a juventude que passava pelas ruas. Alegre, mas diferente. Lembrei-me de outros versos:

Eu fico triste quando vejo alguém contente. 

Tenho inveja dessa gente que não sabe o que é sofrer.

 Não era inveja da juventude. Era inveja da inocência. Inveja daqueles que ainda não descobriram que o tempo é um ladrão paciente. Que a vida passa depressa. Que os amigos partem. Que os pais envelhecem. Que as cidades mudam. E que, um dia, todos seremos apenas uma fotografia esquecida numa gaveta qualquer — se as traças não a tiverem devorado.

Foi nesse momento que escutei vozes. A voz de meu pai. A voz de minha mãe. A voz de meus irmãos e irmãs. A voz de amigos desaparecidos. De parentes esquecidos pelo mundo. De professores. De companheiros de juventude. Então compreendi que eles não estavam no futuro. Nem no passado. Estavam dentro de mim.

Foi nesse instante que a ilusão começou a ruir. A cidade de 2076 desapareceu. As ruas modernas evaporaram. Os edifícios sumiram. E uma voz mansa me disse:

— Não deseje despertar num futuro onde ninguém possa esperá-lo. Viva o seu presente. É nele que os seus afetos ainda respiram.

Abri os olhos. Estava novamente em meu quarto. A madrugada silenciosa repousava sobre Fortaleza. Agradeci a Deus. Não pelo futuro. Mas pela infância que vivi. Pelos amigos que tive. Pelos pais que me ensinaram o caminho da retidão. Pelos irmãos e irmãs que tanto amei. Pelas ruas que percorri a pé. Pelo vento suave que ainda guardo na memória. Porque compreendi que a verdadeira imortalidade não está em congelar o corpo. Está em preservar, na alma, uma parte de Aracati que o tempo jamais conseguirá apagar. E, enquanto esse pedaço existir, nunca serei completamente um forasteiro. Porque sempre haverá, em algum lugar do meu coração, um menino caminhando pelas ruas empoeiradas de Aracati, pela lama da Maresinha, sem imaginar que um dia sentiria tanta falta daquele mundo que acreditava ser eterno.

Fortaleza, 25 de junho de 2026.