Paulinho detinha um alto astral contagiante. Era dono de uma inteligência aguda, uma perspicácia infinita. Comumente fazia uso de tiradas, piadas e ironias para afastar chatos e aduladores. Rebelde, também era difícil tê-lo como subordinado na repartição em que era concursado. Se o chefe fosse do tipo orgulhoso, narcisístico, gabola, então, certamente surgiriam inúmeros conflitos.
Nesse contexto, coube ao Ivanildo, ou melhor, Dr. Ivanildo, vereador derrotado na última eleição, que era genro de um ex-prefeito do interior, sem maiores qualificações técnicas, mas premido de muita vaidade, gerenciar o setor onde o Paulinho trabalhava.
Ao assumir, logo buscou informações sobre o grupo que lhe caberia administrar. Detestou de cara o Paulinho. Não se encaixava no que se esperava de um colaborador. Andava sempre despenteado, olhos vermelhos, barba por fazer, cara de ressaca, definitivamente, iria enquadrá-lo. Seria questão de tempo.
Logo na primeira reunião, o Ivanildo deixara claro que estavam proibidos atrasos, a regra de ouro. Nada de se debruçar sobre os jornais no expediente, bem como não mais se tolerariam saídas repentinas para fumar, demorar-se no cafezinho, ou fazer uma fé no Bicho na banca da esquina. O momento da administração pública exigia eficiência, proatividade e quem não fosse comprometido que fizesse o favor de pedir exoneração ou transferência.
Após enfadonhas três horas de reunião de apresentação, encerrada com uma palestra motivacional, constatou-se que o Paulinho, aproveitando uma brecha qualquer, já teria ido embora há muito tempo para assistir a um jogo no Presidente Vargas. O chefe então incomodou-se com isso, entendendo como uma afronta à sua liderança.
No dia seguinte, a equipe praticamente toda bateu o ponto rigorosamente às oito horas. Menos o Paulinho, que só chegaria às nove. Ivanildo engoliu a seco, resolveu não falar nada ainda e esperar se esse descumprimento do horário se repetiria.
Era óbvio que se reproduziria por todos os dias. O chefe então, ao constatar cada atraso do Paulinho, passava a inquiri-lo de onde retirava o seu sustento. Era uma técnica que havia aprendido num manual de autoajuda para conscientizá-lo do dever de valorizar o seu emprego. Paulinho, com o intuito de provocar o invejoso e inseguro chefe, em resposta, certa vez inventou:
— Dr. Ivanildo, vivo do meu salário daqui, acrescido do aluguel de cinco apartamentos que mantenho na Aldeota e sete salas comerciais no Centro, que recebi de herança. Minha mulher não trabalha, vive de renda. E o senhor?
Sem dar qualquer resposta, sentindo a provocação, Ivanildo se levantou e saiu da sala batendo a porta exasperado.
Na manhã seguinte, novamente o Paulinho só chegaria às nove para trabalhar. Vinha displicente conduzindo um jornal debaixo do braço e apagando o cigarro. O estagiário já o havia alertado que viria bronca diante da irritação do chefe. Logo ao avistá-lo, Ivanildo, preocupado com a sua condição de autoridade, não perdeu tempo:
— Rapaz, vamos fazer o seguinte. Vou abrir uma concessão. Irei avisar a todos que o seu expediente - exclusivamente o seu - começará às nove. Mas não admito que você chegue depois das nove!
— Isso não vai dar certo. Se o meu horário for transferido para as nove, só chegarei às dez... não dá, é da minha natureza...Deixa assim mesmo”, insistiu o Paulinho.
Ivanildo, abalado, quis ir à forra tentando humilhar o subordinado:
— Olhe, rapaz, veja o meu currículo, me respeite. Estudei com um dos maiores executivos já formados pela academia. Aos vinte e um anos, ele já era presidente de uma multinacional. Foi meu colega e acompanhei de perto sua escalada até a glória. Estou acostumado a lidar com gênios. Estive sempre do lado de mentes brilhantes...
Um meditativo Paulinho rebateu:
— Para ser sincero, devo ponderar que essa sua elogiosa menção ao seu companheiro me lembra que lá na fazenda do meu pai, em Iguatu, criávamos dezenas de caprinos, mas havia somente um bode que se destacava dos demais porque dava leite.
— Explique isso melhor, rapaz!”, irrita-se Ivanildo.
Paulinho sempre em tom irônico, rebate:
— Ora, é bem simples de entender. Na sua turma, como na fazenda do meu pai, existiam dezenas de alunos ou bodes comuns. Esse seu amigo era o diferente, o excepcional da turma, como o bode que dava leite, por isso virou notícia. Os demais eram medíocres, como os outros alunos - à exceção do gênio.
Ivanildo se calou. Estaria o ousado subordinado chamando-o de “medíocre”? Não conseguia captar ao certo. Irado, pegou a pasta e foi-se embora. Com o passar do tempo, relaxou quanto ao Paulinho, mas sempre o fitava com cara feia, até que, finalmente conseguira arranjar um cargo de chefia noutro lugar graças à intervenção do seu sogro.
Afastou-se do cargo tão rápido como entrou e ninguém ficou triste com a sua saída. Soube-se que ficou mais uma vez na suplência na eleição seguinte e iria suportar mais quatro anos equilibrando-se em cargos comissionados.
Curiosamente, o chefe nomeado em substituição ao Ivanildo era alguém do círculo de amizades do Paulinho. Jogavam pôquer juntos aos sábados. Com o passar dos anos, ficaram mais próximos ainda tanto que Paulinho acabou sendo convidado para apadrinhar o filho recém-nascido do novo chefe.


