O desenlace se deu abruptamente. Partiu, claro, dela, que sempre comandava tudo naquele namoro sem se importar com que os outros pensariam. Madura até demais para a idade. Por estar cansada de lidar com alguém com a autoestima no subsolo, largou-o mais rápido do que se apaixonara. 

Sempre inconformado, ele teimava em recordar cada detalhe do rompimento e não se perdoava. Talvez fosse isso o que mais o sufocava: a sensação de fracasso, de ruína, de vergonha, de não ter terminado bem. Pior, o de não ter revertido aquela situação. Sabia que agira tomado pela falta de confiança e pelo ciúme. Via-se como um inferior. Compreendia que havia fraquejado, falhado mais de uma vez, sem ter tido a chance da volta por cima. 

Frustrado consigo mesmo, não queria ser amado e sim acalentado. Sentia-se abandonado sem pai nem mãe, mesmo sendo um adulto barbado. A insegurança o sufocava. Desejava-a de novo a todo custo. Conservava esse hábito infantil, de chamar a atenção, de dizer-se vítima de tudo e de todos. Carecia de auxílio, por certo. Isso passa, maldito mantra de autoajuda, resmungava. Danem-se, gritava. Era consequência do ócio, aconselhavam. Ali ele morreu num mesmo corpo que permaneceu vivo. Teve que aprender a se reconstruir e, de certo modo, cambaleante, resistiu, conservando aquele sentimento adormecido. 

Só que pensava ainda nela cotidianamente, de forma obsessiva, doentia. Ela, ao contrário, já virara a página há muito tempo. Fascinado, chegou a adotar a tática dos alcoólicos anônimos, do esforço de um dia de cada vez, de um dia sem telefonar, depois aumentava o prazo para uma semana, um mês, um ano. Era inútil, sem perceber mandava recados por conhecidos, que não sabe se chegaram. Odiava-a em silêncio. Acusava-a de ter destruído o seu amor-próprio. Saía em disparada, cantando pneus, circulando ao redor do prédio dela madrugada adentro como se ninguém conhecesse a sua placa. 

Precisava urgente de terapia. Não teria sido mais fácil se tivessem sentado numa mesa qualquer e exposto suas ansiedades, aberto seu coração? Os seus medos, seus receios e seus fantasmas? Mas não, o orgulho impediu essa conversa. Faltou diálogo, hoje o homem calejado compreende. 

Desconhece-se a que preço o tempo, sempre ele, deu conta de refratar aquele desejo diante de tantos dilemas outros, surgidos numa escalada progressiva de uma existência intensa, mas cultivou-o guardado consigo por muitos anos e seguiu seu conformado cotidiano, até reencontrá-la on line em perfis da internet. Mantiveram longos bate-papos noturnos em que ela confessava que guardava uma boa impressão, apesar de ele ter pensado o contrário esse tempo todo. 

Demoraram mais alguns meses, até que se encontraram num evento. Cumprimentaram-se, quase com um abraço. “Como vai, meu querido?”

 Vai acontecer, a intuição aguçava o tesão. Mais cedo ou mais tarde haveriam de pôr fim a esse desejo mal resolvido. 

Calhou, dias depois, de um encontro. Conversaram um pouco entre vinhos e bossas, ela já o advertira antes virtualmente que zerassem o passado, que não sofresse mais com isso. Após, beijaram-se, amaram-se, sem compromissos, sem exigências, sem amarras, sem receios, sem horas. Não seriam namorados, esposos, casal, nem mesmo amigos. O desejo iria guiá-los dali para a frente, o que ele aceitava resignado, pois aprendeu que era essa a regra do jogo. Aquele frio no espinhaço aparecia ainda ali vindo não se sabia de onde e mantinha-o empolgado. 

Pensava recorrentemente nela, que sempre foi uma mulher maravilhosa. Amava quem, como e do jeito que quisera. Antes, inexperiente, achava-a leviana. Hoje compreende se tratar de uma alma livre, decidida, resolvida e que sempre esteve certa em manter-se fiel à sua essência. Finalmente aquiesceu em tê-la perdido naquela época, pois as cabeçadas da vida lhe ensinaram que ninguém pertence a ninguém. 

A decepção pelo que passou foi amenizada e pôde, afinal, se desprender um pouco daquilo tudo e perdoar-se pelas besteiras de outrora. Aquele desejo saciado depois de tantos anos era também um alento para o homem fraco que um dia fora, o então hesitante vencia a barreira do tempo. Já podia, vez ou outra, abraçar a si mesmo, como quase nunca o fizera antes e se permitir viver algumas aventuras. 

Quanto aos dois, um dia se reencontrarão, caso o desejo os venha atiçar novamente.