Amanhecera um formosíssimo domingo outonal, muito límpido e festivo, cheio da rumorosa alegria dos campanários carrilhonando aos crentes.
Largo o céu, varrido de nuvens, cor de pérola, d'um azul de porcelana, desmaiado e nitente, lembrava o fundo igual duma tela úmida enxugando ao sol.
No verde espesso e sombrio dos morros de Santa Teresa, que uns tons de neve enfeitaram traindo aqui o pitoresco perfil de um chalé Renascença, ali um pedaço de muro caiado de novo – havia essa quietação aparente das paisagens longínquas...
Imóveis os coqueiros de longas palmas pendentes, imóveis os cachos rubros, sanguinolentos, de um grande pé de framboesas melancolicamente encostado ao fundo d'uma igreja vetusta, imóvel como uma pintura, todo esse admirável trecho da natureza fluminense, dourado amplamente pelo fulvo sol do meio-dia, toda essa paisagem consoladora, fresca e luminosa, larga e sugestiva.
Para lá dos Inválidos, n’outro plano mais elevado, por trás do cemitério de Catumbi, a vista atingia a ponta culminante de uma montanha angulosa e obtusa, varando a transparência do ar lavado: era o nariz do gigante que se vê do mar, o Corcovado, uma espécie de focinho de animal monstruoso farejando as nuvens...
O Almeida, estudante de Engenharia, chegado há pouco do norte, acabava de almoçar naquele momento, e, sentado à janela do sótão que havia no alto da casa de pensão, palitando os dentes, num preguiçoso e mórbido abandono em mangas de camisa, sem colarinho, soprava o fumo do cigarro, o olhar vago na paisagem.
Chegaram-lhe aos ouvidos indistintamente, esmorecidos pela distância, os sons de um realejo de praça repetindo, fanhoso e plangente, as mesmas peças, trechos de operetas em voga, pedaços de ópera seródia.
– E vive a gente assim (filosofava o Almeida), n’um quarto reles de hospedaria barata, sem dinheiro, sem amigos, sem uma amante, sem um carinho de mulher bonita, devendo os cabelos da cabeça, vendo todos os dias as mesmas caras, os mesmos tipos e ouvindo as mesmas banalidades!...
Fez um gesto de tédio, abriu os braços n’um largo espreguiçamento, escancarou a boca n’um bocejo medonho, e atirando fora a ponta do cigarro:
– Pílulas! Isto não é vida nem aqui nem na casa do diabo!
Desde que saíra da província, havia seis meses, só recebera mesada uma vez, uma única! Decididamente era muitíssimo melhor ser cáften ou puxar carroça, a estudar sem dinheiro. Até estava emagrecendo... Não tinha roupa, não tinha botinas... uma miséria!
Tanto rapaz alegre, tanta gente enchendo os botequins, esbanjando com mulheres, passando fartamente, comendo e bebendo do melhor. – E ele? Uma vida de cão! Era preciso andar pedindo emprestado a uns e a outros, cinco mil réis aqui, dez mil réis acolá, para poder viver, para ir passando mais ou menos...
Seu pai, negociante no Pará, nem sequer lhe escrevia...
Era lá vida?
Tinha vontade às vezes de fazer uma loucura: embarcar nalgum vapor estrangeiro, como criado de convés, e ir-se do Brasil, ir-se para só voltar muito rico e independente.
Não ter nem para uma garrafa de cerveja e ser obrigado, no fim do ano, a prestar exames!
Mas, refletia, em todo caso era sempre melhor isso, mil vezes melhor que tornar à província. Preferia suicidar-se, acabar com a existência, meter uma bala nos miolos, a viver outra vez na prisão de uma capital provinciana, sem futuro, sem ambições, estupidamente, invejado, espezinhado pelos patrícios...
Nisso bateram na porta do quarto.
– Quem é?
– Uma carta p’ro senhor...
E apareceu um galego de suíças, bigode rapado, mostrando os dentes n’um sorriso cheio de submissão e estupidez.
– Uma carta!
Almeida teve um pressentimento ao pegar no envelope tarjado de preto com o carimbo do registro. Esteve muito tempo em pé, sem coragem para abrir aquele papel fúnebre que lhe punha tremuras na mão, com uma extraordinária admiração no olhar.
– A letra é de mulher...
E depois de outra pausa, chegando-se à janela que abria para os morros de Santa Teresa:
– Ora, vejamos! Um homem é um homem...
Rasgou o invólucro, e, à luz do dia, que penetrava largamente em seus aposentos, leu:
“Meu querido filho
Escrevo-te com a vista cheia d’água, num desespero horrendo! Estas linhas são portadoras da maior desgraça que já me tem sucedido... Elas vão dizer-te, lá onde estás, que teu pai, o meu querido Zeca faleceu ontem d’um ataque, ao voltar do Comércio.....
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Estou inconsolável.
Peço-te que venhas logo, meu filho.
Vão quinhentos mil réis para as despesas da viagem.
Nem sei como te diga tão grande catástrofe. – Tua mãe
Euzébia”.
– Pobre velho! murmurou Almeida contando o dinheirinho que em tão boa hora lhe chegava milagrosamente do norte.
E, debruçando-se na janela, sem uma lágrima no olhar e sem um gesto de dor, muito calmo, repetiu:
– Pobre velho! Nem ao menos teve o gosto de ver o seu filho formado...
Não havia jeito: tinha que ir à província tratar do inventário...
E voltou a contemplar a paisagem, o Corcovado, o Pão d’Açúcar, a igrejinha da Glória agachada por trás dos morros, admirando agora com os olhos de artista (sim, com olhos de quem tem no bolso cinco pelegas de cem mil réis) o assombroso espetáculo da natureza em pleno meio-dia e que ainda há pouco lhe fazia o efeito de uma detestável aquarela de pintor atrasado.
– Que belo aquilo! Como se esperdiçam tintas e luz!... Preciso ir ao Corcovado...
Lá estava ainda imóvel como uma verdadeira pintura o panorama de Santa Teresa, verde e sombrio em baixo, na fralda da montanha, luminoso e amplo em cima no vasto céu sem nuvens!
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FONTE: Contos. Adolfo Caminha. – Fortaleza: Editora UFC, 2002. p. 53-57


