Entrei apreensivo no quarto porque não sabia como estavam mãe e filha, nem mesmo que tipo de parto tinha sido. Mas aí vi você pela primeira vez. Foi só pôr os olhos naquela coisinha miúda no berço que todos os receios se dissiparam. Debrucei-me sobre o seu berço e verti indefesas lágrimas de amor e, de repente surgiu em minha mente um trecho da poesia “Marília de Dirceu”:

“Para viver feliz, Marília, basta
Que os olhos movas, e me dês um riso.
Graças, Marília bela,
Graças à minha Estrela!”

 Claro que você não abriu os olhos nem me premiou com um sorriso, mas apertou o dedo na sua mãozinha e naquele momento esqueci a racionalidade de saber que era um reflexo natural de um bebê e imaginei que você estava me saudando, me dizendo: —  Oi painho, você chegou?

E aí começou o meu grande desafio, ser pai pela primeira vez. Um modo novo de amar, um amor que ensina ouvir estrelas, um sol que chega para realinhar as órbitas dos planetas, não tem explicação!

E você foi crescendo, suas células se multiplicando numa velocidade estonteante. Embriaguei-me com o primeiro sorriso, repeti abobado suas primeiras palavras, tropecei com os seus primeiros passos, me emocionei com a suas primeiras letras do ABC. Adorei contar histórias e ver as intermináveis fitas de vídeo até você dormir. Adorei quando você me pediu para ficar ao seu lado quando foi dormir determinada a não chupar mais o dedo. Ardi em chamas com as suas febres, meus ossos trincaram com a fratura de antebraço e eu, que não acredito em Deuses, desejei que existissem e cravassem aquela pneumonia no meu pulmão. 

Mas aqui está você, uma mulher pronta, madura, que já viveu amores e desamores, médica formada e com certeza uma profissional extremamente responsável na profissão que abraçou. Pronta para continuar me orgulhando pela sua seriedade, generosidade, sensibilidade e doçura. 

Sinto que faltei a você em alguns momentos, pois abracei a luta política por uma sociedade melhor como um poeta se agarra a poesia, mas mesmo na ausência você sempre esteve presente, você que é fruto do amor.

 

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Texto escrito por ocasião da formatura de minha primeira filha.