O amanhã segundo Gonzaguinha [1]
Quem não conheceu o filho de Dona Dina? A fama dele extrapolava os limites da comunidade. Aparecia direto na televisão. Chacrinha, depois Faustão. Também teria um pai muito famoso que tocava sanfona, andava com um chapéu de couro e um gibão. Sem dúvida, era ele. Magérrimo, barbicha abundante, cigarro numa mão e o violão na outra. A camisa branca aberta no peito e o cordão mostravam que ainda era o mesmo de sempre que subia novamente o Morro do São Carlos.
Havia “descido por necessidade” [2] , afinal, desde pivete se sentou lá no alto e olhou de longe a cidade, como se estivesse pensando o “cheiro do asfalto” [3] . “Depois de tantas batalhas, a lama nos sapatos era a medalha que ele tinha para mostrar” [4] . Sim, mostre para todos que esperavam o retorno daquele guerreiro - no fundo do peito ainda um menino [5] - que, com um fogo de não se acabar nos olhos partira com o pensamento de terras e gentes a conquistar.
Por muitas vezes, quis chorar e peço ao colo palavras amenas. Forte ou frágil, um homem também chora, e merece ao menos um sono que o torne refeito com um abraço da própria candura [6] . Sabe-se que já se humilhou e teve muitos sonhos castrados, mas aprendeu a não ter vergonha de ser feliz [7] .
Ao retornar, entra num botequim e pede uma “cerva” gelada. Anima-se numa batucada. Logo junta gente. Percebe que se trata de uma rapaziada que não foge da fera e enfrenta o leão. Sorridente, comenta em voz alta: "eu vou à luta é com essa juventude que não corre da raia a troco de nada. Eu vou no bloco dessa mocidade que não tá na saudade e construiu a manhã desejada..." [8]
Aproxima-se de um menino que brincava na rua, perguntando-lhe o nome. Intuitivo, redarguiu ao moleque, orientando-o que “nunca se entregue, nasça sempre com as manhãs... deixe a luz do sol brilhar no céu do seu olhar!”[9] Brinda o futuro. O amanhã. Afinal, “o passado é um pé no chão e um sabiá, o presente é uma porta aberta e o futuro é que virá.” E repetia: fé na vida, fé no homem, fé no que virá!”[10]
Reuniu todo mundo que dele gosta para dizer que hoje se gosta muito mais, porque se entende muito mais também: “E que a atitude de recomeçar é todo dia toda hora. É se respeitar na sua força e fé. E se olhar bem fundo até o dedão do pé”.[11]
A morena que tanto esperara finalmente o encontrou. No passado, ele saiu dizendo que chegava já e que o amor por ela fazia a saudade apressar[12], havia implorado pelo amor, um grito de alerta[13], dizia estar sangrando[14] por dentro e o coração explodiria a qualquer instante, precisava falar alguma coisa, não daria mais para segurar[15].
Parecia apaixonado e realmente disposto a recomeçar: “Ao som desse bolero. Vida, vamos nós. E não estamos sós. Veja, meu bem, a orquestra nos espera. Por favor, mais uma vez, recomeçar.”[16] Recomeçar? O caso deles seria uma eterna porta entreaberta, mesmo que se utilizassem sempre da palavra mais certa. Havia um lado carente que dizia que “sim”, mas a vida deles gritava que “não”!
Por sua vez, ele assegurava que haveria “guardado um carinho no cofre” para ela: “De um coração que voou. Um afeto deixado nas veias de um coração que ficou. A certeza da eterna presença. Da vida que foi. Da vida que vai. É a saudade da boa. Feliz, cantar...” [17]
A morena sofria com essas viagens, essas despedidas, coisas de uma vida tão cigana. Era uma saudade estrangulada. Ele olhava bem fundo nos olhos dela e afirmava ver a luz de uma eterna primavera, mas era preciso, mais do que nunca, prosseguir. [18]
Teria que continuar com seus shows e viagens. Por ter que partir novamente, justificou-se alegando que tinha vontade de chegar e acabava chegando, mas pegava em seguida a estrada porque sempre havia uma cigarra batendo no peito querendo ir cantar noutro lugar. [19]
Era a sua vida, o que teria feito que andasse por caminhos como as linhas dessa mão[20]. Uma vida de viajante[21], de andar por todo o país, para ver se um dia descansava feliz com suas recordações. Uma vida que ele sabia que podia ser bem melhor, mas não o impedia de dizer que era bonita, bonita e bonita![22]
Na manhã seguinte, beijou-a, despediu-se. Eterno aprendiz, o mundo é que é o seu lugar. Perna no mundo, partiu[23].
[1] A crônica é livremente inspirada na vida de Gonzaguinha, citando trechos de músicas do compositor.
[2] Com a perna no mundo (Gonzaguinha)
[3] Com a perna no mundo (Gonzaguinha)
[4] Com a perna no mundo (Gonzaguinha)
[5] Guerreiro Menino (Gonzaguinha)
[6] Guerreiro Menino (Gonzaguinha)
[7] O que é, o que é? (Gonzaguinha)
[8] É (Gonzaguinha)
[9] Nunca Pare de Sonhar (Gonzaguinha)
[10] Com a perna no mundo (Gonzaguinha)
[11] Eu Apenas Queria Que Você Soubesse (Gonzaguinha)
[12] Espere por mim, morena (Gonzaguinha)
[13] Grito de Alerta (Gonzaguinha)
[14] Sangrando (Gonzaguinha)
[15] Explode Coração (Gonzaguinha)
[16] Começaria Tudo Outra Vez (Gonzaguinha)
[17] Feliz (Gonzaguinha)
[18] Espere por mim, morena (Gonzaguinha)
[19] Diga Lá, Coração (Gonzaguinha)
[20] Diga Lá, Coração (Gonzaguinha)
[21] Vida de Viajante (Luiz Gonzaga/ Hervé Cordovil)
[22] O que é, o que é? (Gonzaguinha)
[23] Com a perna no mundo (Gonzaguinha)


