Nem sei como consegui ancorar meu barco. Houve tempo em que pensei em me perder de mar adentro, descer pelas águas correntes, entre árvores e animais afogados, e desembocar no oceano imenso. Houve ocasiões em que senti as águas se abrirem e a sensação de que ia submergir para sempre.

Houve uma eternidade de dúvidas, vacilações, temores. Especialmente ao atravessar a juventude. Como custou a passar a minha juventude! Como demorei sentar ferros, encontrar o barranco!

E será mesmo que meu barco se encontra protegido, preso ao lodo, manietado por fortes cordas? Não terá saudades dos tempos embriagados? Será mesmo que ele baixou as âncoras definitivamente e não mais deseja navegar sobre águas turbulentas?

Dizem, e eu não desminto, que eu muito falo de um tempo que já devia estar sepultado. Dizem que eu me recordo constantemente de um tempo de boêmio: mulheres, cabarés, bebida, a incerteza do amanhã. Dizem e eu não desminto.

Por isso, nem sei mesmo como meu barco encontrou seu porto e nele se agarrou. Veleiro sem comandante, escuna sem bússola, saveiro sem mestre no comando. Até nem mesmo sei, eu que nunca fiz esforço para sentar raízes.

Eu sempre gostei de exumar o passado. E isso porque muitos acontecimentos nunca foram na realidade sepultados. Estão mais vivos do que nunca, estão pulsando constantemente.

Riobaldo, aquele que Guimarães Rosa nos legou à eternidade, deixou gravado em rocha: “A lembrança da vida da gente se guarda em trechos diversos, cada um com seu signo e sentimento, uns com os outros. Tem horas antigas que ficaram muito mais perto da gente do que outras, de recente data”.

Acontece que meu barco encalhou ou resolveu desconhecer distâncias. E vai criando ostras no seu casco adormecido. O marinheiro do passado se acumulou de responsabilidades mil. Por isso o presente é alienante, pois é constituído de compromissos asfixiantes.

Essa mensagem não vai em código, mas não procurou clareza, transparência. Entretanto, nos dias que correm, o grande problema não é compreender, porém aceitar. E é o que tenho feito ao fundear meu barco: aceitar!

Também não quero dizer que o barco ancorado se entristece com o porto lodoso e com as ostras que se multiplicam. Quando deixei cair minhas correntes, já sabia do futuro. Se não fosse assim, eu haveria de tanger o veleiro rio abaixo, entrar pelos mares, ganhar oceanos, aportar noutras terras.

O que desejo agora, se o destino permitir, o destino que são os homens que comandam todos os destinos, é permanecer adernado. Aceitar as horas presentes e viver com as mensagens do passado, que são os lenços a acenar no momento da partida, de todas as partidas que foram necessárias.

Agora, quero eu, é conservar o barco ofegante de tantas andanças. É aceitar o porto que me abrigou após longas travessias.

E morrer, se possível num futuro ainda muito distante, sentindo que o sol ainda é capaz de iluminar curtas travessias, que as águas ainda são as mesmas e que o porvir independe dos meus anseios já satisfeitos.

Porque, no final, é como diz Fernando Pessoa: “Não me arrependo do que fui outrora / Porque ainda o sou”.

 

*Nascido em Aracati-CE, o escritor Holdemar Menezes consagrou-se na ficção. Em 1972, conquistou o Prêmio Jabuti de Literatura com a célebre obra "A Coleira de Peggy".

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MENEZES, Holdemar. A Vida Vivida: crônicas. — Florianópolis: Ed. Da UFSC/ Ed. Lunardelli, 1983. p. 51- 52.