Cristiano, que era meu amigo de infância, colega de sala de aula, futuro sócio e também vizinho, estava um pouco estranho naqueles dias. Andava me evitando. Desconfiado, descobri o motivo. A namorada dele na ocasião, Lívia, era sobrinha de uma pessoa da produção do show do Chico Buarque e ambos iriam assistir ao ensaio na véspera da apresentação, que seria no dia 04 de junho de 1999.

Receoso, ele havia prometido à então amada que não iria comunicar a mais ninguém, pois poderiam ser barrados. 

No entanto, num ato ousado de minha parte, peguei o encarte do CD “Chico Buarque - ao vivo - Paris le Zenith” e entrei sem permissão no carro dele, no momento em que o porteiro se preparava para abrir o portão do nosso prédio. Assustada, Lívia me olhou com cara de ódio.

— “Lívia, não se preocupe, vou entrar como se fosse da imprensa. Para todos os efeitos nem te conheço”.

Dentro do carro, liguei para Rodrigo, sem sucesso, devia estar na faculdade. Consegui falar com Murilo e marcamos de nos encontrar imediatamente na casa de shows.

Ao chegarmos lá, surpreendentemente para um baiano, Murilo já se encontrava na porta, com o CD “As cidades” na mão. Já na entrada, Cristiano se despediu e entrou com Lívia na qualidade de membros da produção.

Ainda tentando ingressar no recinto junto com o pessoal da imprensa, tive a sorte de me deparar com um colega de futebol no BNB Clube, o “Paulo Malaca”, que fazia parte da segurança do evento e permitiu que tanto eu como Murilo entrássemos para assistir o ensaio.

O cenário já estava todo montado. E a banda iniciava o ensaio exatamente com “Paratodos”, canção de abertura do espetáculo. Estavam todos lá: o maestro Luiz Cláudio Ramos, o percussionista Chico Batera, a tecladista Bia Paes Leme, o cearense e renomado baixista Jorge Helder, o flautista Marcelo Bernardes e o veterano baterista Wilson das Neves. Mas nada dele, nada de Chico Buarque...

De toda forma, assistimos ao repertório integral do show, ensaiado sem vocal pela banda, que por sinal, anos depois viraria um álbum intitulado “Chico Buarque - ao vivo”: ‘Paratodos, Amor Barato, A noiva da cidade, A volta do Malandro, Homenagem ao Malandro, A ostra e o vento, Sem você, Cotidiano...’

Lembro que as canções “Bancarrota blues”, “Como se fosse a primavera” e “Cotidiano” foram repetidas à exaustão. De toda forma, o ensaio terminava com as canções em homenagem à Mangueira: “Capital do Samba” e “Chão de Esmeraldas”.

De repente, os músicos dão uma pausa no ensaio. Todos bebem água. Conversam aqui, discutem um detalhe acolá, quando, num passo tímido e com uma maçã na mão, ingressa Chico Buarque no palco.

Confesso que fiquei paralisado com aquela entrada súbita. Ele era bem mais magro do que eu imaginava, tinha um andar desengonçado e imediatamente repetiu a primeira metade do repertório do show juntamente com os músicos.

Nova pausa. O gênio da música solicita um cigarro e desce do palco em direção à seleta plateia que a tudo admirava. Iria conceder uma entrevista coletiva.

Como eu estava inserido no grupo de jornalistas, tive a rara oportunidade de me aproximar do meu maior ídolo na música. Apresentei-me. Falei-lhe palavras um pouco desconexas, disse da nossa admiração pelo conjunto da obra, que tinha todos os discos, que estaria no show no dia seguinte. Fiquei com vergonha de pedir um autógrafo, afinal, eu estava ali como jornalista...

Contudo, uma “colega de profissão” que havia escrito uma excelente reportagem para o Jornal O POVO, não se conteve e pediu um autógrafo. Era a senha que precisava para sacar do bolso o encarte do cd “Chico Buarque – ao vivo - Paris le Zenith” e, com muito jeito, pedir um autógrafo, o que ele gentilmente atendeu de pronto.

Irradiante, não acreditei quando li o encarte:

“Para Lucio, Chico Buarque”

Depois da entrevista, a produção pediu para que a imprensa se retirasse. O resto do ensaio seria restrito ao pessoal da parte técnica. Expulsos, Murilo e eu nos escondemos por detrás de uma frondosa mangueira, como dois meninos que acabaram de cometer uma peraltice.

A cada música ensaiada com Chico cantando, mesmo camuflados, aplaudíamos entusiasticamente. Vimos o show inteiro. O que vivi ali naquela noite já havia sido o suficiente.

No dia seguinte, data do tão esperado show, numa matéria do jornal O POVO, pode-se ver o meu braço de papagaio de pirata numa foto do compositor em matéria exclusiva sobre o ensaio da noite anterior. Na reportagem, a amiga jornalista fez menção a “palmas longínquas atrás de uma árvore assistiram a tudo”...

A noite seria histórica. Em casa, ligo o som e abro uma garrafa de vinho. Logo chegariam Murilo e Rodrigo, este elegantemente vestido com uma camisa branca de seda, quando tive uma ideia: iria levar um presente especial para Chico Buarque.

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MEIRELES, Lucio Telmo. Quando o olho brilhou – Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2015. p. 13-16