O multiartista aracatiense Edson Virginio apresenta, nesta entrevista, os caminhos que deram forma a Olhos d’água de Aracati, romance de estreia em que fé, corpo, arte e memória se entrelaçam como matéria viva. Um convite para acompanhar de perto o gesto criador que sustenta sua narrativa.
EDSON VIRGINIO- A história de Márcia chegou a mim muito antes do romance. No início da década de 1990, assisti, pela televisão, a uma entrevista que ela concedeu ao jornalista e apresentador Lúcio Brasileiro. Eu não tinha um projeto de livro; ficou apenas a impressão de ter encontrado uma vida que não cabia no modo apressado como costumava ser contada.
O que me moveu não foi um instante de revelação. Foi a permanência de uma história que, ao longo de quase três décadas, continuou voltando a mim.
Em 2003, quando trabalhei no Colégio Marista Sagrado Coração de Jesus, em Fortaleza, Frei João Maria me falou sobre a pintura de Márcia e sua relação com os capuchinhos. Anos depois, já no curso de Comunicação Social, procurei Marcise Mendonça Vital, irmã de Márcia, e recebi dela A arte em dois mundos. Pensei então em escrever sobre aquela trajetória. No entanto, a minha vida tomou outros rumos. Vieram o trabalho, a universidade e as mudanças de cidade, e o projeto ficou interrompido.
Mais de uma década depois, voltei ao material. A leitura da tese de José Wellington de Oliveira Machado, defendida em 2021, foi decisiva nesse reencontro. Márcia reaparecia ali ligada à pintura, à fé, ao corpo e aos muitos deslocamentos de sua vida. Passei também a pesquisar Aracati, o Vale do Jaguaribe e a memória cultural cearense. Eu já não era o mesmo leitor do início, e o livro que poderia escrever também havia mudado. O que me moveu não foi um instante de revelação. Foi a permanência de uma história que, ao longo de quase três décadas, continuou voltando a mim.
MP- Embora a obra dialogue com referências históricas e biográficas reais, como a vida de Márcia Maia Mendonça, a escolha pelo gênero romance substituiu a escrita de uma biografia documental. A que se deve essa escolha?
EV- A biografia foi minha primeira hipótese. Durante a pesquisa, percebi que os documentos me davam datas, lugares e acontecimentos, mas não me permitiam conhecer a intimidade de Márcia nem preencher seus silêncios como se fossem fatos comprovados. Eu poderia registrar o que aconteceu; não poderia afirmar o que ela pensou ou sentiu em cada momento. O romance me ofereceu uma forma mais honesta de lidar com esse limite, assumindo a imaginação sem apresentá-la como documento.
A produção da via-crúcis, as passagens por Paris e o trabalho realizado no Salambo, em Hamburgo, pertencem ao percurso real de Márcia. A partir desses pontos, construí cenas, diálogos, atmosferas e conflitos. Em vez de repetir os acontecimentos como num relatório, procurei imaginar o que havia ao redor deles. Podia ser a luz de um espaço, uma pausa numa conversa, o gesto de uma mão ou aquilo que ninguém registrou.
Em determinados momentos, também modifiquei os nomes de pessoas de seu entorno e reelaborei suas presenças. A realidade fornece raízes ao livro; a forma como essas raízes se espalham é ficcional.
Quero que o leitor permaneça diante da pintura e, às vezes, tenha a sensação de vê-la nascer.
MP- Como artista visual, sua narrativa é frequentemente impregnada de uma descrição quase imagética. Em cada capítulo, é possível perceber que a narrativa foi concebida como quem pinta, por camadas e luzes oblíquas. De que maneira a experiência com pincéis e telas ditou o ritmo das palavras e a construção de cenas tão sensoriais?
EV- Muitas vezes, antes de escrever uma cena, eu a vejo. Sei de onde vem a luz, como os corpos ocupam o espaço, que cor domina o ambiente e o que deve permanecer na sombra. Só depois procuro as palavras. A pintura me ensinou a trabalhar por camadas, acrescentando, cobrindo, raspando e deixando uma transparência sobreviver. Esse modo de fazer passou naturalmente para o romance.
A écfrase nasceu dessa proximidade. Quando descrevo uma obra, interessa-me menos enumerar o que está na tela do que acompanhar o gesto que a produziu. Procuro alcançar a espessura da tinta, a resistência da superfície e a hesitação da mão antes de encontrar a forma. Quero que o leitor permaneça diante da pintura e, às vezes, tenha a sensação de vê-la nascer.
Na literatura, minha afinidade mais imediata é com Água viva, de Clarice Lispector. Sua narradora, que é pintora, tenta escrever como quem captura o instante anterior à forma acabada. Reconheço-me nessa procura. Em Olhos d’água de Aracati, a frase também foi pensada como matéria. Ela pode receber luz, ganhar peso ou quase desaparecer. Há cenas em que o ritmo nasce justamente desse movimento entre o que se revela e o que permanece apenas insinuado.
Essa relação entre pintura e escrita também orientou a estrutura do romance. A narrativa começa in medias res, quando Márcia, já no fim da vida, dá suas últimas pinceladas. Preferi não iniciar pela infância nem seguir imediatamente uma ordem cronológica. O leitor a encontra primeiro diante da tela, ainda criando, quando seu corpo já se aproxima do limite. A partir dessa imagem, a história se abre em diferentes tempos e recompõe sua trajetória por lembranças, encontros e deslocamentos. Há algo que me toca nessa escolha. As últimas pinceladas de Márcia em vida são também o primeiro gesto do romance.
MP- Em Olhos d’água de Aracati, a cidade é apresentada não apenas como cenário, mas como uma geografia sensível que molda o modo de ser das personagens. Como sua ligação com a terra natal influenciou a concepção da trama construída entre Virgílio e a Terra dos Bons Ventos?
EV- Virgílio carrega algo de minhas memórias como artista aracatiense. Dei a ele a luz que guardo da cidade, a presença do Jaguaribe, as fachadas antigas e aquela sensação de retornar a um lugar conhecido e descobrir que já não o conhecemos da mesma maneira. Ele não é um retrato meu. Recebeu minha forma de olhar e, dentro do romance, encontrou a própria vida.
Ao procurar Márcia, Virgílio reaprende Aracati. A cidade que julgava conhecer guarda histórias pouco vistas, lembranças incompletas e presenças que o tempo quase apagou. Sua busca percorre as ruas, os casarões coloniais e as fachadas revestidas de azulejos, mas também os silêncios de quem permaneceu ali.
A Terra dos Bons Ventos lhe oferece beleza e pertencimento, ao mesmo tempo que vigia, seleciona lembranças e encobre outras. Essa contradição também faz parte da minha relação com a terra natal. O afeto não me impede de reconhecer as sombras do lugar que amo.
MP- Na obra, figuras históricas convivem com criações ficcionais. Como foi equilibrar a responsabilidade ética de retratar uma vida real com a necessidade de criar “espelhos” ou “libertadores” simbólicos para a protagonista?
EV- Esse equilíbrio exigiu decisões muito concretas. Em certos acontecimentos, modifiquei os nomes de pessoas que conviveram com Márcia. Quis reduzir sua identificação imediata e marcar a distância entre a pessoa histórica e a personagem literária. Ao entrarem no romance, essas presenças também mudam. Uma fala pode ser imaginada, dois episódios podem tornar-se um e um gesto pode surgir em outro tempo.
Joseph pertence inteiramente à ficção e não substitui uma pessoa identificável. Ele cria uma possibilidade de encontro dentro da trajetória de Márcia e funciona, em certos momentos, como um espelho. Não lhe diz quem ela é, mas lhe devolve uma imagem que não nasce do julgamento ou da curiosidade. Esse reconhecimento tem valor justamente porque não se apresenta como salvação.
Tenho reserva quanto à palavra “libertadores”. Márcia não espera que alguém lhe conceda existência. Outras personagens podem acolhê-la, feri-la ou ajudá-la a enxergar algo de si, mas não são donas de sua liberdade. Preservar essa autonomia foi o princípio ético que orientou minha escrita.
MP- A trajetória de Márcia — artista, mulher transexual e católica — parecia pedir escuta. Como a leitura da tese de José Wellington de Oliveira Machado, publicada em 2021, serviu de catalisador para representá-la para além do estigma e transformá-la em matéria literária?
EV- Ao ler a tese de José Wellington de Oliveira Machado, reencontrei Márcia pela pintura, pela fé e pelos lugares por onde passou. A pesquisa mostrava sua importância histórica e reunia vestígios de uma vida muitas vezes enquadrada pelo olhar dos outros. O que mais me atingiu, porém, foram as zonas que permaneciam em silêncio.
Em vários momentos, interrompi a leitura e comecei a imaginar como Márcia entrava numa igreja, o que procurava numa tela e de que maneira percebia uma cidade que também a observava. Passei a vê-la em movimento, e não apenas como assunto de um estudo. Essas perguntas aproximaram a pesquisa da literatura.
A tese não me entregava respostas sobre a intimidade de Márcia, nem deveria fazê-lo. Ofereceu-me referências para construir, no romance, uma personagem marcada pela fé, pelo desejo, pela criação e pelos conflitos de seu tempo. Sua humanidade nunca esteve em questão. Procurei evitar que ela fosse compreendida apenas pelo preconceito que a cercou ou reduzida à experiência da vigilância social dirigida a uma mulher transexual. Márcia é também artista, católica, mulher desejante, criadora e sujeito de sua própria história.
Em certos momentos, tenho a impressão de que o rio (Jaguaribe) não corre diante das personagens. Corre dentro delas.
MP- O título e a narrativa evocam constantemente os “olhos d’água” e o Rio Jaguaribe. Que influência esses elementos naturais exercem sobre o romance?
EV- A água muda de forma, recebe a luz, escurece, transborda e continua. Por isso, aproxima-se tanto da memória e da identidade no romance. Como elas, permanece e se transforma. Os “olhos d’água” são nascentes, lágrimas e modos de olhar.
O Jaguaribe leva essa imagem para dentro de Aracati. Ele atravessa a cidade, liga tempos diferentes e carrega vestígios de muitas vidas, inclusive daquilo que a cidade preferiu esquecer. Em certos momentos, tenho a impressão de que o rio não corre diante das personagens. Corre dentro delas.
MP- Em um momento marcante, a narrativa afirma que “o corpo deixava de ser território exposto. Tornava-se casa”. Durante o processo criativo, como foi trabalhar a transição de Márcia e a posse de si mesma em cidades tão vigilantes como Limoeiro do Norte e Aracati?
EV- O romance não explicita o processo de transição de Márcia. Ao longo de toda a narrativa, ela é tratada como mulher e artista. Eu queria que o leitor a encontrasse vivendo, pintando, desejando, amando, sofrendo e exercendo sua fé, sem organizar sua existência entre um “antes” e um “depois”.
Quando o corpo se torna casa, o que muda é a relação de pertencimento. A imagem não anuncia a conclusão de uma transformação física. Ela marca o momento em que o corpo deixa de pertencer simbolicamente à curiosidade pública, à família, à religião ou à medicina e passa a ser habitado pela própria personagem.
Em cidades como Limoeiro do Norte e Aracati, onde as pessoas se conhecem e o olhar coletivo facilmente se converte em vigilância, essa posse de si não oferece segurança absoluta. Márcia convive com rumores, silêncios e olhares demorados. Conquista, porém, um lugar interior a partir do qual pode existir sem pedir licença.
A dor está presente, mas não ocupa toda a personagem. Há inteligência, sensualidade, fé, desejo e criação. Os conflitos não desaparecem; muda a posição de Márcia diante deles.
MP- O texto estabelece diálogos implícitos com artistas como Turner, Matta e Georgia O’Keeffe. Como essas referências da história da arte ajudaram a moldar o estilo literário do romance?
EV- Essas referências entram no romance pelo olhar de Márcia. Quando ela se detém diante das obras de Virgílio, olha como artista. Aproxima-se, reconhece tensões e compara. Turner surge na luz que dissolve os contornos; Roberto Matta, nos espaços atravessados por forças interiores; Georgia O’Keeffe, na proximidade entre formas orgânicas, corpo e matéria. A leitura tem algo de curatorial, embora seja profundamente íntima.
Esses diálogos também orientaram a escrita. De Turner, aproximei-me da luz capaz de desfazer a nitidez de uma cena; de Matta, da ideia de que um espaço exterior pode revelar forças internas; de O’Keeffe, da maneira como as formas orgânicas estabelecem correspondências com o corpo, sem depender de uma explicação conceitual. Isso aparece na composição das imagens, no ritmo das descrições e na escolha do que permanece visível ou apenas sugerido.
Há nesse encontro uma passagem muito pessoal entre minha pintura e a ficção. Libidus, Portrait, Extrema Timidez, a série erótica e Pesadelo são obras de minha autoria atribuídas a Virgílio. A tela Pesadelo é descrita no capítulo “A paisagem que respira”. Gosto da inversão criada por esse gesto. Ele se aproxima de Márcia para compreender sua história; diante das telas, é ela quem o lê. A pintura torna-se uma linguagem de reconhecimento entre os dois.
Outros pintores acompanham momentos específicos do percurso de Márcia. Nas cenas dedicadas à produção da via-crúcis, Georges de La Tour lhe oferece uma luz que parece nascer dentro da pintura; Caravaggio, a sombra que devolve peso humano ao sagrado. Nas passagens por Paris, durante a convivência com Joseph, entram Ingres e Degas. Diante de La Source e das banhistas, o olhar se demora na pele e nos pequenos gestos do corpo feminino.
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Entrevista concedida por Edson Virginio a Marciano Ponciano em 9 de agosto de 2026.

