ENTREVISTA | LUZ, PERSPECTIVA E PERTENCIMENTO: UMA CONVERSA COM O ARTISTA JORGE BRAGA
Jorge Braga, artista plástico aracatiense.

ENTREVISTA | LUZ, PERSPECTIVA E PERTENCIMENTO: UMA CONVERSA COM O ARTISTA JORGE BRAGA

A pintura de Jorge Braga é um exercício de escuta do tempo. Guiado pela luz que incide sobre o leito do rio Jaguaribe e pelas memórias guardadas na arquitetura de Aracati, o artista transforma telas em fendas contemplativas. Sua obra não apenas retratam a história, mas convidam o espectador a atravessar a fronteira entre o visível imediato e o que será revelado na imanência da tela.

MARCIANO PONCIANO – Há sempre um momento que marca, para o artista, o início de sua trajetória. Qual foi esse momento na sua vida?

JORGE BRAGA – Foi em uma exposição coletiva da qual participei, realizada no município de São João de Meriti. Naquela oportunidade, eu ganhei medalha de ouro com o quadro O Mosteiro. Era o incentivo de que eu precisava para continuar e aprimorar minha pintura. Desde então, passei a estudar história da arte, os grandes mestres da pintura, a visitar museus e outras exposições, com o objetivo de conversar sobre arte com os expositores. O ano era 1995.

MP – Durante muito tempo você conciliou a carreira na Polícia Militar do Rio de Janeiro com a pintura. Nesse exercício aparentemente tão antagônico, que histórias desse período você poderia compartilhar conosco?

JB – Sempre trabalhei na rua, combatendo. Era uma escala apertada. Às vezes esse trabalho ocorria em uma viatura com mais um combatente, e outras com cinco companheiros, em outra escala (24 x 48). Na hora de descanso, geralmente na madrugada, eu devorava livros com a biografia dos grandes mestres. Nesse período, eu já havia migrado da tinta a óleo para a acrílica. Ali, entre o ofício de militar, eu aproveitava para retocar algum estudo sobre luz ou perspectiva. Essa prática era de conhecimento geral. A supervisão passava, via o volume de livros, um rabisco inacabado e, às vezes, até mesmo uma pequena tela. A conversa rendia entre um cafezinho e outro, até ser interrompida por alguma emergência.

MP – Sua obra é majoritariamente materializada sobre telas. Que outros suportes você já experimentou? De que maneira essas escolhas influenciam ou potencializam o ato criador?

JB – Sim, utilizo as telas na maioria de meus trabalhos, porém já experimentei murais e, ultimamente, tenho realizado pequenos trabalhos de pintura sobre a “cabeça de talo” de carnaubeira. O trabalho com murais surgiu de uma experiência no Rio de Janeiro, em que convidávamos jovens praticantes de grafismos urbanos e lhes apresentávamos novas possibilidades de expressão em superfícies autorizadas, com apoio de moradores para a aquisição dos materiais. Muitos aderiram à proposta, e realizamos diversos murais pela cidade.

O rio Jaguaribe é a própria alma do ambiente e da cultura que me inspiram a pintar.

MP – Como se estrutura o seu processo criativo? Quais caminhos você costuma percorrer até a conclusão de uma obra?

JB – Eu ando de câmera pronta para captar luzes, cenários, pessoas caminhando, conversando na calçada... Fotografo prédios, igrejas, casas populares etc. Escolhido o tema, e com o auxílio do registro fotográfico, já no ateliê, desenvolvo a composição e, assim, defino o que pode ser retirado ou acrescentado. Depois do quadro pronto, eu o posiciono em um lugar por onde passo sempre, para poder vê-lo e corrigir algo na pintura ou mesmo mudar alguma coisa — ou não. Esse processo leva algumas semanas; só então, quando tenho a certeza de que está tudo no lugar, é que vem a parte da assinatura e da colocação da moldura. Nessa etapa, a obra está pronta para ir para a galeria.

MP – Aracati é um tema recorrente em seu trabalho. Hélio Santos, artista plástico aracatiense, assumiu em sua produção uma dimensão de engajamento voltada à memória da cidade e à preservação dos casarios coloniais, representados ao longo de mais de 50 anos de atividade. Qual a importância desse tema na sua arte? Há algum diálogo entre sua produção e a de Santos?

JB – Sim, sempre foi o tema central em meus trabalhos. A arquitetura colonial e imperial brasileira: os prédios, suas platibandas, azulejos, gárgulas e pinhas; as igrejas; as janelas e portas dos casarões. Para mim, é de suma importância registrar esse tesouro tão raro hoje em dia, pois ele é quase sempre submetido à “modernidade arquitetônica”, que padroniza essas fachadas com novos materiais, modificando a estética urbana de períodos anteriores.

MP – Recentemente, você desenvolveu uma série dedicada às aves do Brasil. Fale-nos um pouco mais sobre esse trabalho.

JB – O resultado desse projeto está sendo muito gratificante. O clima está mudando; a população mundial cresce a cada ano e, portanto, as construções não param de crescer. Cada vez mais a área verde diminui. Com isso, muitos animais fogem, outros são extintos, e isso impacta de modo muito direto as aves. Lembro, quando criança, do corrupião, da graúna, do galo-de-campina. Esses pássaros, típicos da fauna regional, voavam pelos céus de Aracati aos bandos. A saíra-pintor (Tangara fastuosa), por exemplo, é uma ave endêmica do Nordeste do Brasil. Ela vive no que restou da Mata Atlântica nos estados de Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte. Essa espécie está ameaçada de extinção em consequência da perda de seu habitat e do tráfico de animais. Quando decidi fazer esse trabalho com aves do Brasil, o fiz com o objetivo de alertar para esse problema.

As portas e janelas de Aracati. [...] elas funcionam como metáforas visuais para a transição entre o íntimo e o social, entre o subjetivo e o exterior...

MP – “A realidade do Jaguaribe criou uma literatura própria.” Nessa frase, o poeta e escritor Guimarães Silva destaca o rio Jaguaribe como um vetor fundamental para o desenvolvimento de uma estética singular, potencializada pela relação com o rio. Em que medida essa estética toca a sua pintura?

JB – O rio Jaguaribe é a própria alma do ambiente e da cultura que me inspiram a pintar. Ele está lá, com seus barcos a vela, pescadores e uma infinidade de pássaros. Todos os dias eu saio a fotografar sua maré e o espelho que se forma em seu leito nas primeiras horas, quando o sol desponta... O mesmo faço quando a tarde vem chegando, com suas nuances e cores. Espetacularmente, o mangue se transforma em um ninhal para as garças e outras aves que o habitam.

MP – Grande parte do processo pictórico é um ato de solitude, no qual o artista lida com decisões, escolhas e limites. Apenas quando a obra é exposta o ato criador se projeta para o social, para os sentidos que a arte desperta no observador. Como você avalia o movimento independente protagonizado por artistas cearenses na realização de exposições coletivas, especialmente em Aracati?

JB – Especialmente em Aracati, acho muito importante a participação coletiva dos artistas. Gostaria que mais artistas se disponibilizassem a participar, porque essas iniciativas são vitais para que a arte cearense se projete socialmente, gerando novos sentidos tanto para os criadores quanto para os observadores da cidade.

MP – Se houvesse um trabalho seu capaz de traduzir, de forma mais plena, a sua potência como artista, qual seria? Por quê?

JB – As portas e janelas de Aracati. Porque elas funcionam como metáforas visuais para a transição entre o íntimo e o social, entre o subjetivo e o exterior, e me permitem explorar perspectiva, luz e enquadramento. Dessa forma, me percebo, enquanto artista, como tradutor da realidade ao meu redor... É como se elas representassem portais de percepção, onde a luz e as sombras revelam o que está guardado pelo tempo.

 

JORGE BRAGA | PERFIL- Mesmo vivendo entre o Rio de Janeiro e o Ceará, Jorge Braga nunca se distanciou de suas raízes. Tecnólogo em Gestão Pública e militar reformado, o pintor aracatiense faz da arte um exercício contínuo de pertencimento. Através de uma pesquisa autodidata com a tinta acrílica, Braga transforma a fotografia de campo em composições vibrantes que exaltam a arquitetura imperial, os detalhes dos casarões e a força simbólica de sua cidade natal. Sua obra opera como um constante reencontro com o tempo, onde a nostalgia de Aracati ganha contornos de pura permanência.

 

EM CARTAZ – A exposição individual da obra de Jorge Braga está em exibição na galeria da Biblioteca da Unijaguaribe. Intitulada “Jorge Braga — As Cores do Vento Aracati”, a mostra celebra a trajetória e o olhar sensível desse artista plástico aracatiense e permanecerá aberta ao público até o início de outubro de 2026. Entrada franca.

Serviço:

Unijaguaribe Centro Universitário

Rodovia CE-040, km 138, s/n, Aracati 

Realização: Instituto Vale do Jaguaribe

 

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Entrevista concedida por Jorge Braga a Marciano Ponciano no dia 11 de setembro de 2026.

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