Certa manhã, impaciente com o vazio que insistia em me azucrinar, resolvi observar o movimento da minha rua. Vi, com intensa compaixão, um velho atravessando a via. Sabia quem era, mas não consegui lembrar seu nome. Caminhava devagar, muito devagar, quase parado, com os olhos fixos no chão. Não era a lentidão de quem aprecia a paisagem. Era a lentidão de quem já travava uma batalha silenciosa contra o próprio corpo.

Tinha um destino, certamente. Se fosse longe, porém, a julgar pela velocidade que imprimia aos passos, dificilmente chegaria. Pensei nisso com tristeza. Mesmo assim, não parava, embora os joelhos e a coluna reclamassem a cada movimento. Observei também que não se preocupava muito com os carros que passavam. Não porque desejasse ser atropelado, mas porque sua audição já não lhe entregava todos os sons. Balbuciava algo incompreensível, talvez se maldizendo ou, quem sabe, pedindo que alguém o levasse ao seu destino.

Ao vê-lo, pensei numa verdade que passamos a vida inteira tentando esquecer: a velhice não é uma doença. Mas também não tem cura. Desde o primeiro fio branco até o último suspiro, ela avança silenciosamente, retirando, pouco a pouco, aquilo que durante décadas julgamos definitivo. Primeiro leva a força. Depois, a agilidade. Mais adiante, a autonomia, transformando-nos, contra a nossa vontade, em dependentes de terceiros.

Enquanto jovens, acreditamos que envelhecer é um acontecimento distante, reservado aos outros. Mas o tempo trabalha em silêncio. Não faz alarde. Não pede licença. Simplesmente se instala. Um dia percebemos que os rostos da nossa geração começaram a desaparecer, para reaparecer, às vezes, apenas nos retratos emoldurados da sala.

Foi então que me ocorreu um pensamento aparentemente cruel: a morte talvez seja a única cura da velhice. Não porque seja desejável. Nem porque seja agradável. Mas porque interrompe um processo que, de outra forma, seguiria indefinidamente em direção à deterioração. Se os homens fossem obrigados a envelhecer para sempre, sem jamais morrer, talvez a própria existência se transformasse numa prisão.

Imagino um mundo onde ninguém partisse. Corpos centenários acumulando séculos de desgaste. Memórias sobrepostas como páginas amareladas de um livro interminável. Articulações imóveis. Olhares cansados. Uma vida que continuaria por obrigação, não por plenitude. Talvez a natureza — ou Deus, conforme a crença de cada um — tenha estabelecido um limite não como castigo, mas como misericórdia. A morte encerra a caminhada quando o viajante já não consegue carregar a própria bagagem.

Por isso, embora a temamos, ela é necessária. É a grande inimiga da juventude. Mas pode ser a libertadora da extrema velhice. Vi isso acontecer com meus pais. Vi isso acontecer com amigos. Vi isso acontecer com pessoas que, nos últimos meses de vida, já pareciam habitar uma fronteira invisível entre este mundo e outro. Quando partiram, a dor ficou para os que permaneceram. Mas, para eles, terminou o cansaço. Terminou a luta contra um corpo que já não obedecia. Terminou a longa negociação diária com a fragilidade.

Com os anos, compreendi que o verdadeiro problema não é a morte. É a separação. É o vazio deixado na cadeira da varanda. É o telefone que não toca mais. É a voz que desaparece, mas continua ecoando na memória. E talvez seja por isso que sofremos tanto.

Naquela manhã, o velho conhecido terminou de atravessar a rua. Chegou à outra calçada. Parou por um instante para recuperar o fôlego. Depois seguiu adiante. Eu o observei até desaparecer na esquina. Então me dei conta de que todos estamos fazendo a mesma travessia. Uns mais depressa. Outros, mais devagar. Mas todos caminhando na mesma direção. E talvez a sabedoria não esteja em temer a chegada da finitude, mas em aproveitar o tempo que nos resta enquanto ainda respiramos.

Porque, se a velhice é o último capítulo da vida material, a morte, por mais que nos assuste, pode ser o fim — e também o recomeço. No mais, ninguém conhece os desígnios do Criador.

 

Fortaleza, 29 de junho de 2026