Há cerca de 30 anos, descendo do metrô no Rio de Janeiro, deparei-me com um cartaz com o seguinte título: Bibi canta Piaf. Saí correndo em direção ao teatro em que o musical estava em cartaz; não me lembro qual. Ao chegar às suas cercanias, deparei-me com uma fila que virava literalmente o quarteirão ao redor do teatro. Teimosamente, enfiei-me na cauda daquela fila caudalosa e desestimulante, com o ardor de fã das duas grandiosas artistas, mas, para meu desencanto, ao chegar próximo à bilheteria, recebo a informação de que não havia mais ingresso para a temporada. Cabisbaixo, saí pelo Rio lamentando a oportunidade perdida de assistir a Bibi Ferreira, num de seus melhores momentos. Eu, que tive o privilégio de assistir, no teatro, a Paulo Autran, Fernanda Montenegro, Juca de Oliveira, entre outros monstros do teatro, fiquei com a sensação cultural de perda irreparável.
Mas eis que, andando por São Paulo, mais precisamente na Alameda Santos, onde foi morto Marighella, na minha busca incessante de cultura, deparo-me com outro cartaz intitulado: Bibi canta Frank Sinatra. Sem acreditar, esperei impacientemente pela abertura da bilheteria, que só se daria três horas depois. Ao primeiro minuto de abertura da mesma, lá estava eu, pronto para utilizar o meu cartão de crédito. E, para minha felicidade, compramos, eu e minha companheira (outra sedenta de cultura), duas das últimas cadeiras para o dia posterior.
Que maravilha! A começar por pitorescos momentos vivenciados por minha amada no toalete feminino, antes do musical. Disse-me ela que duas velhinhas comentavam como Bibi, no alto dos seus 92 anos, conseguiria ficar uma hora em pé e sem fazer xixi; “eu não conseguiria”, comentou uma delas.
E então começa o musical: abrem-se as cortinas e uma big band maravilhosa ataca de Strangers in the Night e, para tristeza dos preconceituosos, com duas virtuosas performances do saxofonista, um branco, e do trompetista, um negro. A seguir, entra o apresentador, que fala um pouco da vida de Frank Sinatra e, aí, apresenta Bibi. Ela entra andando com a vagarosidade dos seus mais de 90 anos, mas com um sorriso de felicidade impressionante, a felicidade de quem está no seu ambiente natural: o palco.
Canta várias músicas de sucesso interpretadas por Frank Sinatra, o famoso The Voice, cantor e ator americano, filho de dois imigrantes italianos, que fez muito sucesso nos anos 50. A voz de Bibi já apresenta os defeitos da idade avançada, mas ainda se ouvem com muita clareza todas as letras das músicas do famoso cantor americano, num afinadíssimo canto. E, para surpresa de todos, canta ainda um dos maiores sucessos de Elvis Presley, quando este surge na cena artística e contribui para o ostracismo de Frank com sua música e sua dança frenética.
Neste momento, velhinhas e velhinhos, que compunham a maior parte da plateia, mexem-se nas cadeiras ao som dançante do rock de Elvis. As reminiscências da juventude afloram em todos os cantos do teatro, trazidas à tona pela arte daquela diva do teatro nacional. Eu, chorão empedernido, tento disfarçar a minha emoção em estar participando de um momento cultural tão rico.
Para finalizar, o musical é encerrado com a famosa New York, New York. Logo a seguir, minha amada, que adorou tudo, no auge dos seus 32 anos, depara-se, no banheiro feminino, com uma senhora chorando copiosamente, agradecendo a uma amiga por ter lhe pago o ingresso para o teatro — um exemplo de presente singelo que uma amiga pode dar a outra: embriagar-se de cultura.
Saímos pela avenida Paulista cantarolando as músicas de Frank Sinatra, que teimosamente ressoavam nos nossos ouvidos. Valeu a pena esperar tanto tempo pelo encontro com Bibi.

