Pode-se observar, na maioria das vezes, um chato senta sempre sozinho na mesa, bebendo e fumando compulsivamente. Comenta alguma coisa em voz alta, bate palmas para que seja notado, pede música ao cantor, finge intimidade com quem mal conhece. É do tipo indiscreto, pergunta qual o salário do seu interlocutor, tira vantagem de algo que nunca foi capaz de realizar, dá conselhos furados, fala alto, conta piadas sem graça e palpita sobre assuntos velhos e superados. Ou seja, só fala o óbvio ululante. Tem mais. Geralmente o irritante quer ser algo que de fato nunca será. Veste-se mal, usa desodorante leite de rosas, faz elogios com pinta de inveja e, principalmente, é avaro, hipocondríaco, e tem muito medo da morte.
Tom Jobim odiava gente chata e bajuladora. Dizia até que escolhia a mesa do restaurante observando se era “à prova de chatos”. Pois bem, certa vez me lembrei desse sábio conselho do “maestro soberano”, numa dessas infindáveis confraternizações que por causa da profissão sou obrigado a frequentar, acompanhado da minha esposa. No entanto, a festa estava tão lotada que só nos restou sentar à mesa ao lado de um chato. Não tivemos nem a oportunidade de escolher. E o pior, não era um chato qualquer, mas sim um notório aporrinhador que estava exatamente precisando dos serviços de um advogado.
O chato me encheu de perguntas no meio da festa entre refrigerantes aguados e salgados frios e cuspidos. Mal conseguia ouvir a bossa nova que ecoava do piano. A cada pergunta eu me irritava tão somente de ouvir a voz fina e aguda do imbecil. E, de tudo que explicava, com notória impaciência, o gênio às avessas questionava, infelicitado de saber que teria que ter uns gastos extras para solucionar o seu problema.
Enquanto eu afrouxava o nó da gravata - chatos só aparecem em noite de muito calor, num buffet lotado, com traje passeio completo - o meu companheiro de mesa cometeu o ato falho de dizer que morria de medo de espíritos: era o que eu precisava para me livrar da companhia indesejada e pelo menos me divertir um pouco naquela noite enfadonha.
Falei que residia na cidade de Aracati, conhecida por seus casarões centenários. Os olhos dele logo esbugalharam. Súbito, me perguntou se eu já havia visto um fantasma. Sem pestanejar, inventei que sempre que parava para comer um sanduíche no Chicão, eu olhava para os fundos de um casarão abandonado da Rua Grande, e avistava a imagem de uma linda jovem, de aproximadamente vinte anos, se penteando na janela.
O chato, é evidente, não acreditou. Continuei meu relato aduzindo que, inclusive, o caso sobrenatural já teria sido encaminhado para um famoso pai de santo, chamado Tontonho de Ogum, que realizara inúmeros “trabalhos espirituais” para que a jovem desencarnada encontrasse a luz, mas todos os esforços foram inúteis, afinal, a moça continuaria postada de frente para a penteadeira, à espera do noivo que morrera na guerra do Paraguai, há uns cento e cinquenta anos.
O chato começou a acreditar. Empolgado, criei uma história de que na minha casa havia um porão amaldiçoado e que, a cada noite, barulhos de correntes estremeciam as paredes da sala, talvez ecos de espíritos que sofreram os horrores da escravidão.
O chato empalidecera: “Cruz credo”. Acresci que sempre via também a figura de uma velha a se balançar numa cadeira, debulhando um terço. E, quando via dito espírito, limitava-me a fazer uma prece para que ela aceitasse o desencarne. O problema é que todas as noites, o vulto retornara na hora marcada da oração.
O chato estremeceu: “E você já teve medo alguma vez?”. Em resposta, disse que só tive receio numa noite em que um espírito teria coçado o meu pé, exigindo que eu saísse da rede e da casa dele. Claro que tudo isso era criação minha para me livrar daquele importunador.
Para concluir, disse ao meu amigo que iria lhe dar de presente uma edição do livro “Histórias de Assombração do Aracati”, de autoria do meu tio Antero Pereira, em que poderia ter acesso as mais diversas histórias semelhantes ocorridas na cidade dos bons ventos.
Em silêncio, o chato pediu licença. Iria ao banheiro. Como demorou, paguei a conta dele, sete reais e cinquenta centavos, uma dose de uísque Teacher's apenas. Perguntei se o restaurante serviria a la carte para os convidados do evento. Em resposta, o garçom me trouxe logo o cardápio e limpou a mesa em que repousavam azeitonas comidas pelo amolador mor. Pedi o menu, solicitei um vinho e minha esposa Andrea pediu um filé à roquefort. Beijamo-nos ao som da bossa nova que finalmente meus abençoados ouvidos agradeciam lisonjeados.
Minutos depois, avisto sentado em duas ou três mesas adiante o meu amigo chato, já refeito do medo, ao lado de outro solitário de características similares.
Aponta para mim e diz bem alto: “pense num advogado chato, estragou a minha noite...”
MEIRELES, Lucio Telmo. Quando o olho brilhou – Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2015. p. 59-62

