Nome pomposo, que o seu portador repetia constantemente, com ênfase e voz sonora. Lembram-se dele?

Trata-se do popularíssimo “Cabra homem”!

Quem viveu em Aracati, não pode negar que o conheceu.

Era um tipo de homem alto e forte. Curvado sobre as muletas, carregava a parte superior do corpo quase em sentido horizontal. Assim dobrado em ângulo quase reto, uma linha horizontal encontraria dois pontos salientes, que por sinal ficavam nos extremos: os quadris e a cabeça.

Pendurada ao pescoço, à guisa de sacola, trazia invariavelmente a metade de uma lata de querosene.

Era o receptáculo das esmolas que recebia de mãos caridosas. Pendente de um lado, sobre os ombros, carregava um saco.

Curioso tipo de mendigo, esse, que transportava dois repositórios para guardar o que lhe davam. Curioso, sobretudo, porque um dos repositórios era uma lata vazia, pendurada ao pescoço, sendo ele, dentre muitos outros, o único que exibia essa particularidade.

É que, meus amigos, na lata guardava o velho “Cabra homem” farinha, bolachas, feijão e até dinheiro.

E no saco eram carinhosamente acondicionados os gatos que, para “Cabra homem”, segundo ele afirmava satisfeito, era o melhor prato que conhecia.

Quem, na cidade, queria se ver livre de um gato, rabugento, ladrão, perturbador do silêncio noturno, não precisava ter o trabalho de cometer um assassínio... Livrava-se do bichano, praticando a caridade... Oferecia um banquete a “Cabra homem”.

Mas o traço marcante de “Cabra homem” não era esse.

O que o distinguia era o espírito lúcido, irrequieto e galhofeiro, contrastando com o físico de um mendigo.

Sabia-se quando ele estava no quarteirão, pela voz forte e firme, destacando-se das demais, principalmente porque só falava alto.

Era tal o seu desembaraço, que palestrava, antes de levar a esmola, com os principais homens de Aracati, inclusive com as próprias autoridades.

E fazia-o sem constrangimento, com familiaridade, e dava gosto ver o acolhimento que ele recebia dos vultos de destacada posição social em Aracati.

À entrada da antiga rua do Comércio, demorava-se na casa J. Klein & Figueiredo. Aí palestrava com o Cel. Jaques Klein e o Cel. Figueiredo.

Foi por esse tempo que começou a batizar com o nome de Major Bruno, o então Bruno Porto da Silva Figueiredo. Se não fora “Cabra homem”, o nosso estimado Major Bruno não teria ganho a patente, pela qual hoje é conhecido.

Consta que a princípio “Cabra homem”, que, como já frisei, era palrador e barulhento, assim o chamava pela semelhança que havia entre os nomes Bruno e Brum.

Isso parece exato, porque “Cabra homem” fora soldado e servira na fortaleza de Brum, que ainda hoje existe à entrada do porto do Recife.

Sem dúvida, devido ao fato de ter sido soldado, servindo na capital pernambucana, e de ter viajado, “Cabra homem” era traquejado. Macaco velho, como se diz na gíria. A caserna é uma escola e daí porque “Cabra homem” sabia, ao que parece, ler regularmente, sendo, ainda, incorrigível contador de histórias...

Acredito mesmo que os homens de Aracati gostavam de conversar com “Cabra homem”, para ouvir-lhe as histórias que contava, embora, na maioria, ficasse em xeque a veracidade das mesmas...

Uma faceta interessante do espírito de “Cabra homem”, era a maneira autoritária com que pedia esmolas, e o hábito inveterado que tinha de tratar as pessoas, dando a cada uma delas uma patente militar, segundo a idade, a fortuna ou o prestígio de que gozavam na sociedade local.

O fato de ter sido soldado e de haver sempre ouvido ordens rápidas e incisivas de seus superiores, atuou no seu psiquismo a ponto de, já velho, doente, e obrigado a recorrer à caridade pública, em decadência física e mental, levá-lo a fazer com os outros, aquilo que fizeram com ele, ao tempo em que era praça rasa.

Daí porque gritava imperativamente ao pedir esmolas. Na realidade não as implorava, exigia que lhas dessem. À porta da loja de meu pai, da qual, ainda menino, eu era caixeiro, “Cabra homem” gritava: “Major Correia, minha esmola”!

Note-se que o meu velho pai também era Major. Já Mamede Nogueira, se a memória não me atraiçoa, era “Capitão Mamede”. Havia os “tenentes”, “coronéis” e até “generais”.

Tanto quanto me permitem as faculdades retentivas, lembro-me de “Cabra homem”, berrando à porta do Cel. Pinheiro: “Cel. Antônio Francisco Pinheiro, Henrique Cesar Briguet Marinho Facundo de Andrade veio buscar a sua esmola.”

Sempre assim. Impunha mais do que pedia. E para ele não havia a palavra — perdoe.

Às vezes, alegre, cantava pelas ruas da cidade, uma velha ária, ou pedaços de uma antiga canção militar.

“Cabra homem” era, por assim dizer, um mendigo de prestígio. Para mim era mais do que isso. Era um símbolo.

Hoje é uma grata recordação.

 

Fonte:

BARBOSA, Josias Correia. Tipos Populares. Vol. 1. Fortaleza: Ramos e Pouchain, 1943. p. 6-9.