Situada numa das principais avenidas de Aracati-Ce, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário desponta impávida mediante a efervescência de nossos dias. A edificação é uma espécie de memória do tempo, da religião católica, reminiscência das irmandades que havia em Aracati. O mais antigo registro nos traz a informação que a primeira edificação foi construída de taipa na antiga rua do piolho, atual Avenida Coronel Pompeu e nela rezavam os escravos aos domingos os seus terços até que o capitão Feliciano Gomes da Silva e sua mulher Floriana Ferreira da Silva, em 1777, fizeram doações de pedra e cal, para seu patrimônio e requereram licenças para erigir e benzer a capela com o título de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, a qual seria mantida pela irmandade de igual denominação. 

O livro “As Irmandades Religiosas do Ceará Provincial: apontamento para sua história[1]”, escrito por Eduardo Campos, apresenta-nos vasto material que nos possibilita compreender o papel das irmandades religiosas no Ceará para o qual destacaremos a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos da cidade de Aracati. 

Campos enfatiza que a ação de tais irmandades era vastíssimo o que determinava o seu papel sociorreligioso. A ação duplamente instituída tinha como característica primordial a construção de templos, cemitérios e o cuidado do exercício dos ofícios. Todavia as irmandades conjuravam outras funções entre as quais as de caráter social e político, a exemplo do idealismo antiescravagista. 

Segundo Campos “existiam irmandades apenas de brancos; as de brancos e pretos. Outras, de pardos. Algumas, raras, só de pretos, quer apenas de escravos ou destes e forros; as integradas por pardos e brancos, e aquelas que quase sempre, incluindo pretos escravos, compunham-se de reis e rainhas”. 

Sendo assim, além de se constituir somente de homens negros, a irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Aracati era rigorosa e restringia o compromisso para o ingresso àqueles sentenciados a prisão ou degredo, aos desprovidos de moral e conceito público, aos escandalosos, filhos-famílias, alienados, escravos, enfermos, loucos, etc. 

A supracitada irmandade aracatiense, não aceitava brancos na confraria. Em seus documentos determinava quem poderia constitui-la: pessoas pretas, católicas romanas, e de boa conduta moral. 

A edificação é um indicativo da ação socio-política-religiosa desses homens que se mantém como memória e importante remanescente arquitetônico da presença católica em Aracati. 


[1] CAMPOS, Eduardo. As Irmandades religiosas do Ceará provincial: apontamentos para sua história. Fortaleza, Secretaria de Cultura e Desporto, 1980.