A Artur Azevedo
Um excêntrico, o Luciano, esse tipo bem-acabado de artista misantropo, meio filósofo, meio poeta, todo sensibilidade e platonismo, vivendo a seu modo uma vida calma de doente incurável.
Preocupava-me como um problema difícil, como um mistério impenetrável, aquela simples caixinha de veludo azul claro, sempre no mesmo lugar, em cima da secretária, misteriosamente imóvel, n'uma quietação teimosa de esfinge, enchendo, ela só, todo o pequenino gabinete, de não sei que boa e sugestiva alegria.
Todo poeta oculta algo absconso e nebuloso que se traduz em melancolias profundas e recolhimentos de asceta. O meu amigo não escapava a essa lei fatal que muita vez transforma um artista n'uma espécie de animal selvagem... D'aí, talvez, o seu modo original de ver as cousas, de encarar a vida, e as suas frequentes extravagâncias de boêmio incorrigível. Em matéria de amor, por exemplo, ninguém mais pueril, ninguém mais exigente. Não admitia, sob pretexto algum, que a amante lhe falasse com entusiasmo noutro homem, fosse ele muito embora o Sr. Armand Duval, o Sr. Conde de Camors ou o Sr. primo Basílio, que, por fim de contas, são meros personagens de romances.
Arrufava-se vinte vezes ao dia sem o mais pequeno motivo, por um excesso de amor egoísta; raro entrava em casa que não fosse de cara fechada, batendo as portas, furioso, maldizendo as mulheres sem exceção, num desespero quase feroz.
— Umas pérfidas! Desde Eva até Madalena, todas a mesmíssima coisa, os mesmos artifícios, as mesmas lábias, o mesmo processo de comover pelas lágrimas!... Não, ele decididamente não se prenderia mais!
E no dia seguinte (fraquezas de poeta...) lá ia rua abaixo, cigarro ao canto da boca, trauteando baixinho, direito como um fuso, à casa da Rosita, como se nada tivesse acontecido.
Ela recebia-o como de costume — atirando-se-lhe aos braços n’uma fúria de amor selvagem...
— Adorável, esse Luciano! Dizia ela.
Rosita era uma esplêndida muchacha, uma formosíssima rapariga de vinte e três anos, nascida em Buenos Aires, espirituosa, terna e insinuante como um fruto proibido. Via-se-lhe a alma através dos olhos muito meigos, de longas pestanas e onde havia um quer que era demoníaco e irresistível. Fugira aos vinte anos com Luciano e nunca mais o deixara por coisa alguma deste mundo, assim como também nunca mais pusera os pés no palco, trocando todas as suas glórias de bailarina admirável pelo grande amor, pelos caprichos incoercíveis de um artista apaixonado.
Muito sensível e franzina, lábios escarlates de tísica, foi definhando, definhando cada vez mais, até que um belo dia (por sinal arrulhavam pombos no telhado...) — pobre Rosita! — mandaram-na, sem dó nem compaixão, para debaixo da terra, dentro de um caixão forrado a setim cor do céu, toda de branco (extravagância de Luciano), em trajes de Nossa Senhora de Lourdes, com uma faixa azul na cinta, muito alva, duas rosetas de carmim nas faces... Cortava o coração ver aquela criatura, uma santa que nunca fizera mal a ninguém, que dava esmola aos pobres e gostava de flores e crianças, tão boa, tão tenra, e cuja vida fora um rosário de dedicações impagáveis, ir-se para o cemitério, deitada num esquife, inteiriçada e feia como um qualquer bloco de mármore...
Eu, por mim, confesso, achei aquilo uma iniquidade.
Luciano, esse recebeu o golpe de frente, sem uma queixa, sem uma lágrima, os olhos enxutos de dor!
Mumificava-se diante do cadáver da amante.
...........................................................................
Ah!... ia-me esquecendo a caixinha de veludo azul claro.
Foi justamente sete dias depois do enterro de Rosita, num domingo, que a vi pela terceira vez sobre a secretária do meu amigo.
Não me contive:
— Que é isso, ó menino?
— Nada... Um presente de anos...
— Segredo?...
— Sim, segredo...
Calei-me para não ser indiscreto, mas Deus sabe a curiosidade que me torturava o espírito.
Ele, porém, o bom Luciano, compreendeu a minha aflição e, condescendendo, entregou-me a chave do inviolável segredo.
Ó manes de Fídias, ó espírito imortal de Praxíteles, ó alma iluminada de Benevenuto Cellini, se vísseis o que eu vi dentro da misteriosa caixinha azul de Luciano, certo o vosso divino orgulho de artista se abateria, mestres, ante a mais perfeita e a mais bela de todas as criações humanas, essa assombrosa mão de mármore, e esse primor de escultura, genialmente feito pelo escopro de um boêmio das ruas, essa mão fina e aristocrática, tão distinta e tão delicada que dava vontade à gente de beijá-la, mordê-la e adorá-la de joelhos como a um amuleto sagrado!
— Que primor! murmurei crendo assistir a uma ressurreição.
— É a mão de Rosita, fez Luciano com um sorriso desconsolado.
— E por que não lhe esculpiste antes o coração em mármore? Seria até mais poético...
— Sim, mais poético... Fora preciso, porém, rasgar-lhe o peito, e eu amava-a muito, meu amigo. Primeiro o amante, depois o artista...
E duas grossas lágrimas cristalizaram-se nas faces do maior artista que eu já conheci.
FONTE: Contos. Adolfo Caminha. – Fortaleza: Editora UFC, 2002. p.27-30

