Nas comemorações do centenário da emancipação política de Aracati, no longínquo ano de 1942, a cidade vestiu-se de gala e promoveu diversas festividades para enaltecer essa magna data de nossa história.
Uma solenidade que marcou profundamente esse memorável evento aconteceu no magnífico salão nobre do Maison Moderne, quando da conferência de um ilustre desembargador. Comentava-se à boca pequena — e às vezes à boca escancarada — que o ilustre magistrado se dedicava com mais afinco às letras jurídicas do que aos raros dentes que ainda lhe ornamentavam a arcada, e que, ao discursar, lançava ao auditório uma tão copiosa cerração de saliva que mais lembrava garoa de inverno do que oratória de salão. Fora ele convidado pelo Dr. Eduardo Alves Dias e pelo eminente promotor de Justiça Dr. Ubirajara Carneiro, que, movidos por zelo cívico, julgaram oportuno trazer à magna celebração tão peculiar orador.
A preleção do desembargador, sobre a importância econômica e política do Aracati, foi deveras empolgante e esclarecedora, digna e merecedora de encômios, e aplaudida pelo escol aracatiense.
Castorina Pinto e um seleto cortejo de moças e senhoras, representando o que de mais granfino e elegante a sociedade de Aracati podia ostentar, foram designadas para apresentar as boas-vindas ao brioso causídico.
Na ocasião dos cumprimentos ao insigne orador daquela data tão faustosa, as senhoritas encarregadas das gentilezas protocolares dispuseram-se em alinhadas fileiras diante do visitante, compondo um cortejo de delicadezas que só a fina sociedade aracatiense sabia ostentar.
Angélica Pinto, prima de Castorina, percebendo-lhe a ausência justamente no instante das mesuras oficiais, saiu em sua busca, ansiosa por reconduzi-la ao recinto para os efusivos cumprimentos de praxe.
— Castorina, vem, está na hora das felicitações ao desembargador.
— O Boca de Neblina? Vou não, Angélica. Eu não trouxe o guarda-chuva!

