Na segunda metade dos anos 1940, durante o governo de Faustino de Albuquerque, veio ao Aracati o médico e deputado estadual professor Quintílio de Alencar Teixeira[1], então chefe do Departamento Estadual de Saúde do Ceará. Ele chegou acompanhado do colega, também médico e Delegado Federal da Saúde, Dr. Armando Salgado Lages[2], além de várias outras autoridades, para ver in loco as consequências de uma severa inundação do rio Jaguaribe em nossa cidade.

Estavam na companhia dos médicos uma sortida equipe de socorro, da qual participavam várias enfermeiras, guardas sanitários e vacinadores.

Ao chegarem ao Porto José Alves, situado na margem ocidental do rio Jaguaribe, tiveram de embarcar em botes e canoas para seguir até o Porto Monteiro, onde desembarcaram, dirigindo‑se em seguida para o centro urbano da cidade.

Depois de se alojarem no Hotel Aracati, entraram em contato com as autoridades locais e iniciaram o trabalho que vieram executar. Começaram pela vacinação e pelas visitas domiciliares, procurando identificar doentes e evitar novos contágios, enquanto orientavam os grupos de limpeza pública formados pelo pessoal da Prefeitura.

Numa crônica bem‑humorada publicada no jornal O Povo em 1950, o Dr. Quintílio de Alencar Teixeira relatou assim a experiência que teve ao encontrar Castorina Pinto naquela época:

Castorina, que trabalhava no hotel em que estávamos hospedados e era funcionária municipal, conhecida pela boa verve de apelidar com propriedade, foi, desde os primeiros dias, nossa amiga e colaboradora. E ninguém escapou ao apelido. Cada um teve o seu. Dois provocaram supimpa hilaridade — o meu e o do Lages.

E continua o Dr. Quintílio, a descrever as características dele e do amigo que inspiraram a ‘Botadeira de Apelidos’:

Eu era, a esse tempo, valente cervejeiro e fumava desesperadamente, mais de quarenta cigarros por dia. Um gorducho, com fácies ocre[3], intoxicado...

O Lages, baixote, tinha rosto redondo, calvície que muito lhe ampliava a testa, supercílios cheios, bem negros, e um bigodinho aparado a rigor.

Pois bem, Castorina ajustou‑nos como luvas os apelidos:

Eu fui o “Bolo Cru”, e o Lages ficou possesso quando soube que Castorina o alcunhou de “Caboré de bigode”.


[1] Quintílio de Alencar Teixeira (1913–1993) — Médico, professor e deputado estadual pelo Ceará. Nasceu em Icó em 17 de junho de 1913 e faleceu em Fortaleza em 30 de março de 1993, aos 79 anos.

[2] Armando Salgado Lages (1913–1979) — Médico sanitarista e deputado federal por Alagoas. Nasceu no estado de Alagoas em 1913 e faleceu em 24 de janeiro de 1979.

[3] Refere-se a uma alteração na cor da pele, geralmente nas pernas e tornozelos, que assume um tom acastanhado, marrom ou ferrugem