Reunião de crônicas e contos de Antero Pereira Filho, uma seleta que destaca sua voz singular e o olhar atento às miudezas do mundo.

A REVOLTA DO VENTO

(Antero Pereira Filho)

O vento chegou silencioso; parecia uma onda gigante do mar, sem barulho, fazendo deitar curvados os coqueiros e todo o mangue da margem do rio. Um sussurro assim nem parecia vento. Soprava de tal modo que não trazia consigo nem um grão de areia dos morros para cima da vila do Cumbe.

O vento zunia sobre os morros sem mexer com a areia. Parecia que tinha cor — uma cor azulada — quando estancou de repente sobre os morros do Cumbe.

Daí por diante, foi o rufar dos tambores, os toques de cornetas e clarins, vozes desconhecidas de comando, ordens militares e, depois, o silêncio. Era madrugada, um pouco antes de o sol nascer...

D. Sebastião, rei de Portugal, que desapareceu na batalha de Alcácer-Quibir, no Marrocos, como por encanto assomou no Cumbe e desapareceu na imensidão do areal que formava as dunas.

Numa delas foram ouvidos o rufar dos tambores e as explosões, como se fosse um exército. Depois disso, os morros sofriam transformações com o deslocamento, mudando de lugar, e imensas faixas de plantações desapareciam.

No entanto, a mais forte aparição de D. Sebastião no Cumbe foi quando seu exército, tendo ele à frente, ressurgiu das profundezas do areal, desceu o morro e marchou solenemente para combater os republicanos nas ruas do Aracati, ao tempo da República do Equador.

A terra tremeu duas vezes: na partida para a batalha e ao seu retorno, na madrugada, quando, encantado, voltou ao Cumbe. Por muito tempo depois desse acontecimento houve somente o silêncio, quebrado poucas vezes pelo exercício militar das tropas nas entranhas dos morros, que modificavam a paisagem.

Um dia, quando o encantamento de D. Sebastião já era lenda e nem se escutavam mais os barulhos das manobras do seu exército, chegaram aos morros do Cumbe as imensas torres e palhetas gigantes dos cata-ventos. Moinhos de vento que iriam cobrir toda a extensão dos morros da Canoa Quebrada até a barra do rio Jaguaribe.

O silêncio dos morros foi então substituído pelo zumbido constante das hélices dos cata-ventos, que cortavam o vento fazendo girar os moinhos num movimento contínuo e ruidoso...

O tempo foi paciente. Pouco a pouco tudo começou a se mexer. Do seu encantamento, D. Sebastião movimentou o seu exército, e uma imensa cratera começou a se formar sob o alicerce, em torno do pedestal dos cata-ventos, fazendo com que fossem sendo tragados para o interior da terra, para as profundezas dos morros...

No afã de não serem engolidos pela terra que as tropas de D. Sebastião moviam aos seus pés, os cata-ventos não paravam de girar, chamando e cortando o vento como se tivessem asas, alçassem voo e subissem...

Em vão. Na desesperada refrega para não sucumbirem, as imensas hélices, na sua descida, começaram a espalhar enormes ondas de areia. Pareciam nuvens do céu que se deslocavam numa grande velocidade, tangidas pela ventania, cobrindo tudo em sua trajetória.

O movimento constante das hélices, tocadas pelos ventos, empurrava os morros do Cumbe, que avançavam sobre a cidade de Aracati como uma onda gigante do mar feita de areia, enterrando e cobrindo tudo na sua inexorável caminhada ao destino final...

Enquanto os morros avançavam, a “Morada Encantada” de D. Sebastião principiava a aparecer, e seu exército, que latente por séculos permanecia, surgiu ao barulho das ondas do mar e à claridade do sol.

Desperto, D. Sebastião ordena que suas tropas lutem contra os cata-ventos e destruam suas poderosas hélices, que ainda continuam a soprar areia para o céu num arrebatado apelo para voltar à superfície.

Serenada a luta, derrotados os cata-ventos que não mais sopravam, assomou nesse momento a figura de D. Sebastião à frente do seu exército, caminhando para o mar e encarando pela primeira vez as dunas do Cumbe. O areal, longe, muito longe, ia cobrindo por completo toda a cidade de Aracati, transformando tudo num imenso “mar de areia branca”. A cidade sumiu! Ficou tudo submerso embaixo de uma montanha de areia na imensidão das várzeas.

Tudo havia se transfigurado. Sem morros nem cata-ventos, apenas uma esplêndida praia de areia branca surgiu onde antes havia dunas... Assim como D. Sebastião, outrora adormecido, os moinhos de vento gigantes agora estavam encantados.

Tinham-se passado muitos anos quando, um dia, apareceu um profeta no lugar que depois se chamaria “Alto da Cheia”. Ao ver aquela imensidão de areia branca que cobria toda a cidade de Aracati, profetizou: “Aracati ainda vai ser cama de baleia”.

Aqueles que ouviram a tal profecia acharam que o profeta estava dizendo uma heresia. Ficaram estarrecidos: como aquele lugar que outrora era um deserto poderia um dia vir a ser “Cama de Baleia”?

Mas as profecias, como dizem os profetas, existem para serem concretizadas e realizadas...

E assim aconteceu. Num determinado ano terminado em 4, houve um grande inverno. Chovia de noite, chovia de dia, quase sem parar. Era tanta água que cobria o areal, fazendo o rio Jaguaribe parecer um mar.

As chuvas de janeiro se prolongaram até março; quando chegou abril, não havia mais lugar para tanta água.

Numa manhã chuvosa de final de abril, de repente abriu-se um clarão. Tudo ficou tão brilhante como se o sol tivesse descido...

O Jaguaribe, que a correnteza levava rio abaixo em busca do mar, parou de correr, impedido pela imponente Barreira Preta. Como uma parede de pedra, ela o fazia voltar e depois retornar num movimento que deslocava o imenso areal que cobria o Aracati. Lentamente, uma massa compacta de terra acompanhava e seguia as águas do rio, que conduzia o areal ao seu ponto de origem. Pouco a pouco a cidade começou a se mostrar novamente. Tudo parecia ter voltado ao normal, e nem o passar dos anos nem mesmo o areal afetaram-lhe a aparência.

Nada na cidade, nada mesmo, mudara. Era como se nada houvesse acontecido...

Quando o sol subiu e a noite chegou, não havia mais enchente na cidade. Todo o povo começou a voltar para encontrar o seu passado.

Naquele dia, o povo acorreu para a igreja Matriz no sentido de agradecer pelo retorno à vida e pelo fim do “encantamento” da cidade. Como por magia, a matriz não tinha um grão de areia nem um pingo d’água em toda a sua estrutura. Nem nas paredes, nem no teto, nem no piso. No entanto, em meio à nave central, como se estivesse dormindo num sono profundo, uma enorme e intacta baleia permanecia, como que para provar que a profecia era verdadeira, fora realizada, era real... Mas os que participaram daquele acontecimento afirmaram que a imagem da baleia era uma visão. Uma visagem que se espalhava por toda a nave da igreja sem ocupar nenhum espaço.

Com a volta dos morros para o Cumbe, os cata-ventos que jaziam inertes nas profundezas da terra emergiram e, ao contato com o vento, começaram a girar novamente.

D. Sebastião, que se livrara do encantamento quando os morros do Cumbe viraram planícies, planando sobre as praias desertas como as areias dos desertos do Marrocos, foi tragado pelas dunas com a avalanche da areia que retornava, voltando novamente a ficar soterrado e encantado nos morros do Cumbe.