A seleta de Dideus Sales revela um sertão que pensa, reage e resiste. Sua poesia, firme como chão de barro e sensível como nuvem rarefeita, expõe a ética do homem comum sem ornamentos. Ler Sales é encarar a verdade crua do Nordeste e admirar sua lucidez.


MEU JEITO DE VER AS COISAS 
  

Não me importa que me chamem 

De matuto ou beradeiro, 

Conheço pau pela casca, 

Flor, conheço pelo cheiro, 

Agricultor, pela lavra, 

Cidadão, pela palavra 

E rico, pelo dinheiro. 

  

Nunca gostei de lambança, 

De rapapé nem fuzarca, 

Quem pratica despautério 

Com as conseqüências, arca, 

Por besteira não me amarro, 

Conheço chão, pelo barro, 

Conheço boi, pela marca. 

  

Sou do sertão vulnerável 

De raquítica ramagem, 

Inimigo de injustiça, 

Contrário da pabulagem, 

Posso gemer, mas não berro, 

Homem tem que ser de ferro, 

De palavra e de coragem. 

  

Na interminável batalha 

Do viver, não tenho trégua, 

Faço círculo sem compasso, 

Traço reta sem ter régua, 

De tudo tiro lição 

E trago no coração 

De sentimento, uma légua. 

  

Não admiro a quem pensa 

Como homem das cavernas, 

Respeito as coisas antigas, 

Gosto das coisas modernas. 

Amo gente equilibrada 

Que não dá uma passada 

Além do alcance das pernas. 

  

Não gosto de fanfarrice 

Nem de gente come-unha, 

Tenho respeito a quem mesmo 

Vencido, não se acabrunha, 

Honra tratos com lisura, 

Palavra é assinatura, 

Não precisa testemunha. 

  

Admiro quem procura 

Viver no ritmo correto, 

Seja urbano ou caipira, 

Letrado ou analfabeto. 

Gente caprichosa e meiga 

Do coração de manteiga 

E palavra de concreto. 

  

Pra mim é mais degustável 

A estrofe mesmo peba 

Do repentista modesto 

Que rima regra com zeba 

Se tiver sentido lógico, 

Do que o verso antológico 

Do cantador decoreba. 

  

Eu sou ardoroso fã 

De quem tem perseverança, 

De quem avança na luta 

Por ter auto-confiança, 

De quem não tem preconceito 

E abriga feliz no peito 

Um coração de criança. 

  

Admiro o ser humano 

Seja simpático ou sisudo 

Que para não ser grosseiro 

Fica por minutos mudo, 

Humilde nos gestos seus, 

Reconhecendo que Deus 

Está acima de tudo. 

  

(Dideus Sales) 


ROSTO DE UMA ESTIAGEM 
  

Nós estamos sequiosos 

de oferendas divinas, 

ausência de bons invernos 

em baixadas e colinas 

faz o nosso sertão feio 

afugentando gorjeio, 

despindo nossas campinas. 

  

As nuvens estão sovinas, 

o céu está avarento, 

o espaço está envolto 

num largo lençol cinzento 

que muda o rumo da chuva 

e é ver um véu de viúva 

no rosto do firmamento. 

  

... Sem mais nenhum alimento 

roendo paus no cercado, 

parecendo esqueletos 

faz pena se olhar o gado 

faminto cambaleando 

quem vê fica imaginando 

um fantasma embriagado. 

  

Pouco alento e descorado 

foice ao ombro e um boné 

de casa para o roçado 

meia légua tira a pé 

o lavrador de esperança 

que estica a confiança 

ao dia de São José. 

  

Tem gente que perde a fé 

vendo este verão nefasto, 

os silos sem ter mais grãos, 

os campos todos sem pasto, 

mugir dorido ao terreiro 

e o criador sem dinheiro 

pra garantir tanto gasto 

  

Berros ecoam no pasto 

em tom de lamentação, 

poeira faz caracol 

subindo na amplidão, 

neste quadro de aspereza 

um tecido de tristeza 

veste a alma do sertão 

  

E para indignação 

do homem da agricultura 

nos surrões não tem farinha, 

nos litros pouca gordura, 

na lata pouco feijão 

e a água no cacimbão 

com cem palmos de fundura 

  

Aumenta mais a agrura 

do camponês descontente 

é ver ao invés de nuvens, 

constelação reluzente 

enfeitando a madrugada 

como cortina bordada 

na janela do nascente. 

  

(Dideus Sales)