A lírica de Emília Freitas pulsa entre memória, perda e o fascínio pelos livros que iluminam o exílio interior. Nesta seleta, sua voz — firme, sensível, crítica — revela a autora que fez da poesia um gesto de resistência e ternura.

OS LIVROS 
  

A MEU IRMÃO AFFONSO AMERICO DE FREITAS. 

  

À tudo que a terra possue de valor  

Os – Livros – excedem, são mais preciosos!  

Deserto, não chamo, lugar onde os ha;  

Pois fazem os dias do exílio ditosos.  

  

Seus bellos discursos, nos dão por bem pouco,  

São sabios amigos fieis na desdita;  

Si o somno nos falta velando comnosco,  

Nos falam de cousas que o vulgo não fita!  

   

Si habitam palacios, tambem se acommodam  

Na triste vivenda, na humilde morada  

Do pobre que os ama, assim como amo, 

De seus attractivos, a luz encantada.  

  

Para as horas de tédio... ninguem como elles  

Nos faz  esquecer crueis dissabores;  

Erguendo a cortina pesada dos seculos   

Nos põem face a face com os nobres auctores:  

  

Aqui vemos Tacito pintando Tiberio  

Com alma bem negra e de mais refolhada!  

– Narrando de Nero os atrozes delirios!...  

Mostrando-nos Roma por elle queimada!  

  

Alli Victor Hugo fallando da França,  

Das scenas que outr’ora de luto e de dôr!  

Vestiram seus filhos já fartos de sangue  

– Em – 93 – oh! Deus quanto horror!  

  

Depois Lamartine no trato das musas...  

Que vozes tão ternas! Que doce harmonia!  

Sua alma derrama em nossa alma encantada  

De tanto lirismo de tanta poesia!  

  

Quem lendo os “Lusiadas” não sente-se preso  

Á voz immortal do grande – Camões!  

Mendigo sublime que ergueu-se mais alto 

Que os reis... os monarchasdemuitasnações?!¹ 

  

Que fonte de gozos não é a leitura  

Das obras perfeitas de auctores diversos...  

Dos Genios que deixam primores, que levam  

A mente a sonhar os raros progressos!  

  

Oh! Livros! Oh! Livros! Meus bons companheiros,  

No ermo o consolo d’esta alma inditosa...  

Ai! quando eu voar para os mundos ethereos  

Por vós partirei bem triste e saudosa.  

   

(EMÍLIA FREITAS, 1891: 81-82) 

¹ É interessante observar que Emília Freitas talvez tenha grafado propositalmente o verso, a fim de obter efeito de sonoridade e, assim, sugerir a indistinção entre os Monarcas, bem como para criticar àquele regime. Nota do livro. Uma escritora na periferia do Império: vida e obra de Emília Freitas  (1855-1908) de ALCILENE CAVALCANTE DE OLIVEIRA. 


A VILLA UNIÃO 
  

A igreja primeiro de longe se avista,  

A margem esquerda do rio ela fica;  

Sem ser pitoresca tem muitos encantos;  

Não é miserável nem chama-se rica.  

  

Mas vê-se, nas várzeas que as águas alargam  

Depois das enchentes, os grandes cercados,  

Aonde s’encontram dispostos em filas  

Os pés de algodão, bonitos florados!  

  

Durante o inverno na verde campina  

O gado... as ovelhas e cabras pastando  

Reunem-se as vezes ao pé da lagoa  

E a sede que trazem vão n’ela apagando. 

  

No pau da porteira ou trepado ao mourão.  

A tarde o pastor costuma a aboiar   

E as vacas correndo, buscando o curral  

Começam saudosas de longe a urrar.  

  

Ai! Vejo tal como nos tempos passados  

As casas que ausência tão triste deixou:  

Aquela onde os dias passei em brinquedos  

A outra onde em breve morreu meu avô.  

  

Ali ensaiei os meus sonhos poéticos;  

Ali despontou esta amena alvorada;  

Tiveram começo quimeras que aspira  

Infância risonha, feliz, amimada.  

  

Mas, nunca uma vez passou-me por mente  

Lembrança que um dia viria a chorar  

Por todas as coisas, que outrora nem via,  

Talvez esquecidas a um canto do lar!  

  

Que as tristes imagens erguidas do pó,  

Viriam falar-me dos anos felizes,  

Que tinham a calma das águas da fonte,  

Do prado florido os claros matizes.  

  

O sol declinava, na tarde em que fomos  

Dizer um adeus saudoso e sentido  

Aos santos lugares do triste jazigo  

Onde as cinzas ficavam de Pai tão querido.  

  

Entramos tremendo no largo portão...  

Buscando seu nome na pedra singela;  

Bem junto do muro, caiada de branco,  

Eu vi sua campa confronte a capela.  

  

Ali de joelhos orando em silêncio  

A Mãe, que era todo meu bem neste mundo,  

Esteve cercada dos tenros filhinhos  

Às vezes soltando suspiro profundo.  

  

Voltamos cobertos de luto e de dor!  

A noite era escura qual meu coração!  

O galo cantou, fizemos viagem,  

Deixamos os campos da bela – União.  

  

(EMÍLIA FREITAS, 1891: 51/52) 


UMA LEMBRANÇA 
  

Quem pode dizer que em chão de rosas 

Vagou sem cravar-se nos espinhos? 

Aquele que partiu cá deste mundo 

Na idade em que a vida é só carinhos. 

  

        I 

  

Refulgia num céu cor de açucena 

As douradas nuvens do romper do dia 

E por entre as flores da grinalda angélica 

Nas brancas ondas de cetim dormia, 

Um louro anjinho que a sonhar delícias 

Pra Eternidade com prazer sorria. 

E da mãe que a um lado soluçava aflita 

Nem pode ouvir o doloroso pranto, 

No imenso espaço ele estendendo as asas 

Voou, sumiu-se, repetindo um canto 

Que ressoava na celeste abóbada 

Pelos luzeiros do azulado manto! 

  

        II 

  

E em que parou teu derradeiro olhar 

Quando partias deste mundo vário? 

Sim, foi na estrela que guiou solícita 

Teus tenros passos oh! ditoso Mário! 

Ela tem sido da virtude símbolo, 

Da fé sua alma é mais fiel sacrário! 

  

Lamenta um berço convertido em túmulo, 

Chora a lembrança de um inocente amor; 

Mas é tão calmo! Tão feliz! Tão doce! 

Quando da morte ceifadora mão 

No peito planta-nos da saudade - a flor. 

  

(Emília Freitas. Fortaleza, fevereiro de 1878)


Emília Freitas em destaque no canal Didosseia 

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