Josias Correia Barbosa devolve grandeza ao cotidiano, fazendo dos anônimos a verdadeira narrativa de Aracati. Nesta coletânea, apresentamos uma seleção de suas crônicas mais marcantes.

MANÉ-CHUMBUDO

É este um dos tipos caracteristicamente aracatienses. Pequenito, pois não tinha mais que 1,30 m de altura, magrinho, trazendo à cabeça um pequeno boné de pano, “Mané Chumbudo” era um artista hábil e excessivamente trabalhador. Trabalhava na tanoaria do velho Chico Rodrigues e, como este, era tanoeiro.
A tanoaria era uma indústria rendosa e bem desenvolvida em Aracati.

Era natural que assim fosse. A cana, desde eras remotas até os nossos dias, é largamente cultivada numa vasta área litorânea do município aracatiense. Cumbe, Cantinho, Córrego do Retiro, Retirinho, Retiro Grande e Praias são centros onde a indústria da aguardente constitui a principal fonte de riqueza. É óbvio que a indústria de aguardente reclamasse a indústria acessória do vasilhame, tais como dornas, pipas, tinas, barris, ancoretas etc.

Daí porque para logo nasceu e floresceu a tanoaria em Aracati, demonstrando a atividade de seus filhos e as vastas possibilidades do meio econômico da “Princesa Jaguaribana”.

A tanoaria, ademais, tinha ainda outras perspectivas além da indústria de aguardente.

Cidade populosa, com várias ruas e muitas centenas de casas, numa época em que o barril se antecipava às atuais fossas higiênicas, era natural que as fossas portáteis tivessem largo consumo.

De sorte que aquilo que fazia a fortuna de João Malaçada também ajudava “Mané‑Chumbudo” a ganhar a vida.

Como dizíamos, “Mané‑Chumbudo” era um tipo extraordinário. Nunca tivemos ensejo de conhecer um indivíduo tão metódico. Nunca o soubemos doente. Trabalhava todos os dias das 6 da manhã às 6 da tarde. Quem passasse pela rua Direita, nos fundos do sobrado do Cel. Alexandrino, encontrava trabalhando do lado de fora, em seus tonéis, aquele velhinho, calado, respeitoso, com o bonezinho na cabeça.

Aos domingos, invariavelmente, ia à missa de madrugada no Rosário, celebrada por Monsenhor Bruno.

Assim como não faltava ao trabalho nos dias úteis, também não faltava à missa de madrugada de domingo.

Após a missa de madrugada, calçado de botinas de borracha, vestido em sua roupinha de brim, às vezes bem engomada e sempre limpa, de camisa e gravata, começava a beber a sua aguardente.

De uma para as duas horas da tarde, com uma precisão cronométrica, dava o seu passeio pela rua do Comércio.

Jamais o vimos acompanhado de quem quer que fosse. Passeava sempre sozinho. E, nessa altura, já andava “embandeirado em arco”, como se diz na gíria dos “paus-d'água”.

“Puchando fogo”, com bastante “pressão na caldeira”, enfrentava triunfante a cidade, passeando à rua de ponta a ponta.

Sempre que o álcool lhe aclarava as ideias, reavivava-lhe a memória, alfinetavam-lhe as saudades de D. Pedro, o nosso querido Monarca do segundo império.

E como tinha consciência de que era livre, e na sua época a liberdade política era um atributo do brasileiro, gritava de vez em quando: “Viva D. Pedro”.

É preciso salientar que “Mané-Chumbudo” jamais caiu de embriaguez. A sua bebedeira durava evidentemente todo o domingo, mas ele bebia compassadamente, porque até nisso era metódico. Sozinho, calmamente, lá ia ele gritando a intervalos mais ou menos regulares: “Viva D. Pedro”.

Quase sempre a garotada das ruas, dentre a qual nós sempre nos achávamos, aperreava “Mané-Chumbudo”.

Estabelecia-se, assim, uma teima, como aquela dos sapos: “Foi, não foi; foi, não foi”. “Morra D. Pedro”, gritavam os meninos; “Viva D. Pedro”, respondia “Mané-Chumbudo”.

E a teima só acabava quando os meninos cansavam e ele vitorioso, gritava três vezes seguidas: “Viva D. Pedro”.

“Mané-Chumbudo” morava num quartinho do beco do Barão. Morava sozinho. Tinha, é verdade, como companheira, Anália! Anália era uma boneca — mas não de carne e osso. Era uma boneca de pano.

“Mané-Chumbudo”, também homenageava a sua boneca; cantava uma modinha dedicada à sua Anália, em que o nome de sua querida era muitas vezes repetido.

Mas, aquele homem metódico, que pautava sua vida cronologicamente de uma maneira certa e definida e que se levantava e se recolhia a horas cronometricamente exatas, era preciso até nas inclinações de seu espírito: ou D. Pedro ou Anália. Não saía desses dois polos. Não variava nunca. Quando não vivava o imperador, cantava a modinha de Anália.

O trabalho honesto e produtivo durante a semana; a bebedeira equilibrada aos domingos; D. Pedro e Anália, eis a síntese de sua vida!

Existe atualmente uma peça de teatro, denominada “Bonequinha de seda”. Há mais de 30 anos existia em Aracati o romance “Bonequinha de Pano”. E quem viveu esse romance foi “Mané-Chumbudo”.

JOSIAS CORREIA BARBOSA


Fonte: 
BARBOSA, Josias Correia. Tipos Populares. Fortaleza: Ramos e Pouchain, 1943. p. 19-22.