A poesia de R. Leontino Filho se ergue em febre e vertigem, onde o corpo da palavra se desmantela para revelar sua nascente cálida. Esta seleta expõe um autor que transforma inquietação em arquitetura de sombra e desejo.

COMPANHIA 
  

aonde quer que eu vá
a tua febre me comanda
cuidado
apenas mais um hábito
o bom nesta parceria
é o durante
o ninho desmantelado
a vertigem
aonde quer que eu vá
a tua umidade me habita
atenção
apenas mais uma inundação
o bom nesta entrega
é o pouso
aonde quer que eu vá
o teu ato é o meu
e somos
a cálida nascente.

  

(R. Leontino Filho) 


 

Três músculos e um nó

para Orides Fontela

1

asa temporã
                palavra indelével
sombra devassa
                lunático sonho
na memória
                que não há


...


nove anos
                no castelo
das meninas
                prostitutas andanças
no silencioso coração


...


seios imensos
sangram
o desvario
da inútil poesia
a vida
no rés do chão


...


urgência
das letras
forma disforme das bocas

2

disfarçar
o vive
expressão burguesa
dentro do sutil
encontro


...


cheiros de história
sábia
lição de não aprender
as mesmas linguagens
as outras chances
de esquecer
e
morrer


...


sem nexo
os prazeres da boca
silenciam o caminho
das frases


...


e tosse e tosse e tosse
no limiar
da imagem
por cair
   tosse  tosse  tosse
poesia e vida
competência e falência
e           e       e
inclinação
de regras
cegas
longa tessitura
encarcerado fantasma
da glória
vôo póstumo
provisória cama
das batalhas perdidas

3

após cada badalada
o espírito
repete
(os sinos dobram)
o que foi
o que é
o que será


será que foi o que é
ou
é assim
o que foi
em tudo que será?


...


poeta
o céu aberto
arguta cor
da amarga
solidão
foi a obra prima
escrita
no cansaço
no fracasso
no desconforto
dos dias


...


a tosse filosófica tosse
a guerreira morta
é a cegueira
dos olhos vivos
a guerreira solta
será a safra
do luxo colhido


...


às nove horas
do primeiro
e derradeiro
galope


...


inocente é a pressa
que (des)conhece
pelos nove ventos
a intimidade
miúda da beleza

fecho


ao avesso
da vida
os olhos
míopes
miram
o trevo


...


de viés
a vida
nas escamas
do tempo
(des)inventa
a teia
: tantos emaranhados
esta fome gêmea
gemendo
no papel


...


a folha
solta na teia
o trevo
hora sim hora não
lambendo
os seios
da criação


  

(R. Leontino Filho) 


 

PARTIDA INTEIRA 
  


Minha alma cega
enxerga o teu corpo
rasgando
os sóis nus da madrugada


Minha alma louca
persegue os teus olhos
incendiando
as luas tortas da noite


Minha alma vã
colhe o teu cheiro
mergulhando
nos ventos doídos da tarde


Minha alma vai
sem pressa
ao encontro
da perdição:
um corpo só corpo
sem alma
a minha

  

(R. Leontino Filho)