Nos poemas de Roberto Vieira, o cotidiano arde: panelas vazias, ecos do sertão, desejos que se insinuam. A seleta destaca a precisão de um poeta que encara a fome — real e simbólica — com lucidez inquieta.

DESEJOS 
  

Sinto que hoje é bem melhor 
Do que o amanhã. 
Entre um incenso e outro 
A paciência me domina, 
A sutileza do dia me 
devora internamente. 
O alfa é questão de segundos 
Começo a amiudar 
Os enigmas do ontem, 
Restos de emoções 
Ocultos desejos se revelam 
Em minha mente... 
As flores dos vergéis 
O playground e seus 
Velhos balanços enferrujados 
Pelo tempo, 
Quando de repente 
As lágrimas da paciência 
Banham o meu rosto, 
Enxugo lágrimas enternecedoras 
Tentando amenizar o êxtase noturno. 

  

(Roberto Vieira) 


 

TÓPICO 
  


No gume da morte... 
Panelas e panelas vazias 
Buscando o fruto do 
Pecado original. 
A minha morbidez 
É tamanha, que 
Não posso sequer 
Olhar a minha 
Pálpebra no espelho. 
Oh! Guimarães Rosa 
Nas grandes veredas 
Desse sertão, 
Quem sabe um dia 
Matarei a fome 
Sem matar quem tem fome. 


(Roberto Vieira)