A escrita de Solange Guimarães convoca o leitor ao choque: a carne viva que pede piedade e o tempo que zomba dos amantes. Uma seleta de intensidade rara.

3 MINUTOS 

 

Entre às minhas pernas, amado, 

Com elas lhe envolvo bem mais forte, 

O tempo conspira contra nós; 

Agora, entre às minhas pernas! 

Cavalheiro, quer me beijar, agradeço... 

Quer me cobrir de doces, me lamber... 

Mas, depressa! Entre às minhas pernas... 

Não se zangue... são os ponteiros... 

Não me olhe assim, não sou fútil! 

Esta sou (eu mesma) e lhe quero amar. 

Tão somente dê-me sua boca, beije-me, 

Feche os olhos, e entre às minhas pernas! 

Nada no mundo vale mais que tu. 

Um pouco teu, para mim, é banquete 

Não me digas que é migalha, isso ofende... 

Pelo que és, três minutos me alimentam. 

Desejas amar com calma, entendo... 

Porque és homem, não apenas macho (suspiro) 

Mas quem te pede é mulher e fêmea. 

Perdemos tempo! Minhas pernas se fecharam. 

 

 

(Solange Guimarães) 


 

SEM PUDOR 

 

 

És uma impressão que me inquieta toda 

E deixas o meu sexo atordoado... 

Teus olhos cálidos, tens grandes mãos, 

Mãos firmes que mais parecem garras! 

És uma impressão perseguidora, 

Penetras até o último céu do meu delírio: 

É um homem, um poema, literatura... 

Ainda mais impressionante, no teu medo. 

Eu quero vesti-lo, experimentá-lo, 

Tê-lo cobrindo meu corpo nu, sutilmente, 

Para ver se me cai bem o teu modelo... 

Pois me cai tão bem a tua essência!... 

Teu caráter valoriza o teu modelo. 

Tu és ouro, és nobre, e és grande! Porém... 

Desejo-te, não por uma eternidade: 

O preço que eu pagaria por ti, não existe. 

  

(Solange Guimarães) 


 

SOBREMESA 

  

  

Tempera, com tua saliva, 

O meu corpo sobre a mesa, 

Porque só com tempero 

Se conserva e dá sabor! 

Come-me com a língua, 

Ela rasga mais que os dentes, 

Tritura e amassa bem mais... 

Sacia-te dos meus gemidos! 

Come viva esta carne 

Para sentires os espasmos, 

Para ouvires o fôlego da vida 

Clamando por piedade. 

Depois, como que arrependido, 

Deita-te sobre mim, 

E, para me consolares d'ânsia, 

Encaixa-te a mim, com ternura. 

  

(Solange Guimarães) 

  

RECITAL 

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Sobremesa. Solange Guimarães. 

Intérprete: Marcela Paschoal. 2008.