Wellington Pinto escreve a partir das fissuras: o lixo que insiste em vida, o país que criminaliza o pensamento, a ilusão que se desfaz em areia. Cada poema, desta coletânea, é uma fresta por onde o real se revela mais duro do que parece.
FLOR TÉTRICA
No monturo uma flor,
sem perfume e sem cor.
Raquítica,
esquelética,
de olhos fundos
e negros,
de pele seca,
tostada,
violentada.
Silenciosa como à noite.
Nos restos imprestáveis,
uma figura tétrica,
diferente dos padrões normais.
Porém, no meio do sujo
uma flor existia...
(Wellington Pinto)
RECITAL
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Flor Tétrica. Wellington Pinto.
Interpretação: Regina Oliveira. 2008.
NA TERRA DO PROIBIDO
Na terra do proibido
é proibido
namorar,
beijar
e sonhar.
É proibido caminhar
para frente.
É proibido
pensar.
Na terra do proibido
não se pode conscientizar.
É proibido
fazer poesia.
É proibido
qualquer manifestação
de alegria.
É proibido
dizer não
a corrupção.
Na terra do proibido
não se conta até dez.
É proibido
contar.
É proibido
alfabetizar.
Na terra do proibido
só se pode enganar.
(Wellington Pinto)
ILUSÃO
O homem sonha
acordado,
dormindo...
Seus castelos no ar:
frágeis,
indomáveis.
Homem-rei.
Sua corte aos seus pés:
obedientes,
sonhadores.
O vento sopra forte...
Os castelos desmoronam.
O homem desesperado
tenta agarrá-los.
Diante de seus olhos:
areia,
vento,
NADA...
(Wellington Pinto)

