Os dias que antecederam o carnaval, em Aracati, foram marcados por intensos questionamentos acerca da previsão de gastos de 2,4 milhões de reais apresentada pela Prefeitura Municipal para a realização do carnaval de 2016.

O Ministério Público Municipal baseou sua contestação na vultosa quantia destinada a poucos dias de folia, sobretudo diante da precariedade dos serviços básicos em Aracati (saúde, educação, saneamento etc.), agravada pela crise econômica e pela estiagem no Ceará. A Prefeitura, por sua vez, se apegou ao discurso da “manutenção da tradição”, argumento que rapidamente ganhou respaldo popular e acabou por desvirtuar questões essenciais à sociedade aracatiense. Muitos chegaram a imaginar o fim do carnaval. No entanto, séculos de história e de tentativas de regulação da mais popular festa brasileira jamais silenciaram a alegria e a brincadeira. Presunção ou não, isso aconteceria justamente em Aracati? O fato é que estamos em pleno carnaval e, como sempre, “amanhã tudo volta ao normal”.

Venceu o discurso da tradição.
Mas que tradição é essa? Para compreendermos o carnaval de Aracati sob esse aspecto, é preciso reconhecer que se trata de uma festa que se reinventa ano após ano.

SÉCULO XX

O acervo fotográfico de Abílio Monteiro, disponível na web, registra o carnaval aracatiense no início do século XX. As imagens revelam o corso com carros desfilando pela Rua Grande, as festas familiares embaladas por instrumentos de sopro e os bailes promovidos no Aracati Club.

Com o tempo, a festa evoluiu para a formação de agremiações carnavalescas — Malandros do Morro, Escola de Samba Caveira, Índios, entre outras. Esses grupos mantiveram suas atividades até o fim da década de 1980, quando surgiu o carnaval eletrizado com o trio elétrico Lazarão, sob a alcunha populista de “Carnaval do Povão”. O novo formato suplantou o carnaval de blocos e de clubes. A tradição, então, foi vencida por intrigas políticas, como revela Antero Pereira Filho em seu artigo “Carnaval do Povão”.

O trio elétrico reinou soberano por vários anos. Contudo, uma festa tão plural precisava incluir outras manifestações até então adormecidas. Dezesseis anos depois, o carnaval de blocos seria novamente incentivado com a criação de novas agremiações, entre as quais “Unidos da Várzea da Matriz”, presidida pela saudosa carnavalesca Formiguinha, e “Universo Negro”, dirigida pelo artista plástico Hélio Santos — esta última ainda em atividade.

SÉCULO XXI


Em 2014, sob a denominação de “resgate”, a Prefeitura de Aracati incentivou artistas locais a retomarem as históricas agremiações do carnaval aracatiense. Assim, voltaram à ativa “Os Índios”, “Caveira”, “Baianinhos do A e B”, “Malandros do Morro” etc.

Hoje, a manutenção da tradição constitui o principal discurso do governo municipal — e, paradoxalmente, o menor investimento. Ironicamente, o termo “tradição”, que deveria encontrar força na permanência das agremiações no carnaval de Aracati, parece se esvair diante da relação entre governo e artistas.

O descumprimento do cronograma de repasse do apoio financeiro põe em risco a continuidade dessa atividade. O problema não é recente, mas se agrava a cada ano. O advento das redes sociais deu voz e mobilização aos artistas insatisfeitos. Notas de pesar publicadas por integrantes dos blocos demonstram que a defesa da tradição está longe de ultrapassar o discurso. Para se ter ideia da gravidade, somente na quarta-feira (03/fev.), dois dias antes do início da programação oficial dos festejos mominos, as agremiações receberam a subvenção municipal no valor de 12 mil reais. Esse repasse constitui a única fonte de manutenção da atividade.

Atualmente, cada bloco possui personalidade jurídica — prática recente —, mas ainda falta, por parte desses grupos, uma mobilização capaz de incentivar a criação de políticas públicas para o setor, com a determinação de responsabilidades mútuas entre gestores e agremiações. Tal iniciativa poderia resultar na sustentabilidade desse trabalho, evitando as discrepâncias verificadas nos últimos anos.

Voltemos à questão da tradição: que tradição é capaz de se sustentar diante de tamanho descaso? Felipe Ferreira, no Livro de Ouro do Carnaval Brasileiro, afirma:

“Novas tradições precisam ser criadas para garantir que a alegria não seja motivo para barganhas políticas, acordos empresariais e outras coisas mais tão fáceis de ocorrer em nome de uma pseudotradição.”

Não há discurso que se sobreponha à alegria do carnaval. A alegria é nata ao brasileiro, ao aracatiense. Reinventa-se a cada ano. Vamos reinventar o nosso carnaval.