Em 2009, com o intuito de revelar o contexto histórico e personagens responsáveis pelo surgimento da Escola de Samba Caveira, eu e Regina Oliveira, realizamos uma série de entrevistas. Um de nossos entrevistados foi Francisco Fernando de Freitas (Mendonça) um dos fundadores da citada agremiação carnavalesca. No recorte compartilhado a seguir destacamos a segunda parte de uma série composta por histórias de um dos mais memoráveis integrantes da Escola de Samba Caveira: Barra de Aço. 

 O VINHO DOS POBRES 

Outra vez na semana santa nós estávamos todos debaixo do pé de algaroba, lisos, bem uns dez. Aí Aldemir (Ponciano) disse:

— Rapaz vocês estão lesos por quê?

— Quiqui não tem nada. 

Rapaz eu tenho um litro de Raposo. Ele foi buscar o litro de Raposo e uma fritada de camarão. Trouxe pra gente. Quando terminou, menino, aí foi que a vontade de beber aumentou. Aí Giló disse assim:

— Eu vou arrumar ali com seu Zé, um litro de cachaça dessa nossa. Dali nós fomos pra casa de Barrinha. Chegando lá, quando a mulher de Barrinha viu – Sexta-Feira Santa – mandou o pau a esculhambar Barrinha. 

— Cabra véi sem vergonha! Você só anda com essa moçada pra beber cachaça no maior dia da humanidade! 

Barrinha saiu assobiando, chegou na bodega de Zé Ponciano comprou dois ki-suco de uva, meio quilo de açúcar. Chegou em casa, misturou, mexeu aí ficou vermelho. Chamou a mulher: 

Anda agora Dona Carminha! Tingi, viu? Vinho dos pobres, fale agora. 

Aí nós fomos beber o “vinho dos pobres”. 

  

O PRODUTO 

A turma bebia demais. Não tinha cachaça que chegasse. Só que cada dia era um lugar diferente. Teve um dia que era num pote. Chico Dureza chegou, procurou, procurou e eu me abrindo. Aí Chico perguntou: 

— Aço, cadê o produto? 

(Sussurrando) Chico a cachaça tá na quartinha e os caranguejos tão dentro do guarda-roupa. 

  

A GOTEIRA 

No dia que Aço se melou, começou a chover. Em sua casa havia uma goteira pingando bem na testa dele. Pan, pan, pan, pan. Aí, Carminha, a mulher: 

— Zé... Zé... acorda Zé. Tão te molhando! A goteira tá mesmo na tua cara. 

Calma mulher, eu quero é brolhar. 


Histórias extraídas de entrevista cedida por Francisco Fernando de Freitas (Mendonça) a Marciano Ponciano e Regina Oliveira no dia 12 de janeiro de 2009.