Um engenheiro químico brilhante, aracatiense, professor de climatologia da Universidade Federal do Ceará e precursor, juntamente com o Dr. João Ramos, das chuvas artificiais no Ceará, ganhou fama bombardeando as nuvens para fazer chover, no que se chamava nucleação artificial. Era figura tão comentada que o povo, entre respeito e gracejo, já o chamava de Faísca, embora ninguém soubesse ao certo de onde viera o apelido.

Teve cadeira cativa no Clube da Onça, onde se reuniam as pessoas mais graduadas da cidade, inclusive o prefeito, aos sábados, para bebericarem numa confraternização entre amigos. Nessa ocasião, o nosso semeador de nuvens, movido pela palpitante e embriagadora Cumbe Gato Preto, dava vazão ao seu entusiasmo, explodindo de contentamento por fazer chover num tempo sem inverno... Era como se cada gole reacendesse nele a alegria de desafiar o céu.

Há uma certa controvérsia quanto ao apelido Faísca, que lhe foi alcunhado. Não se sabe exatamente o porquê de “faísca”: se por causa da explosão das nuvens ou se quando, eufórico, acendia o fogo!! O certo é que o nome pegou, e ninguém mais ousou chamá-lo de outro jeito.

Um belo dia, nosso homem que fazia chover se dirigia à Prefeitura, caminhando lentamente pela rua Grande. Vinha naquele passo torto e concentrado de quem, depois de uma Cumbe bem servida, parece mais uma nuvem pesada, carregada até a borda, pronta para desabar ao menor clarão de um raio — ou à menor faísca. Foi nesse estado de trovoada ambulante que Castorina, da calçada, de longe percebeu que ele vinha tratar com o chefe do executivo municipal. Avexou-se então em avisar ao prefeito Ruperto Porto da visita inesperada que o aguardava; entrou apressada, quase tropeçando na borda da anágua:

— Seu Ruperto, o homem vem aí.
— Quem, dona Castorina?
— O doutor da chuva.
— Que doutor?
— O Dr. Faísca, criatura!!!