O lisboense Antônio é um consultor dos bons, referenciado pelas mais diversas redes hoteleiras. Coube-me a tarefa de ciceroneá-lo em sua passagem pela cidade. De imediato, disse não querer reencontrar Canoa Quebrada para não perder o encanto de sua última estadia, quarenta anos atrás.

Pensei antes de conhecê-lo ser alguém elitizado, pedante ou até mesmo arrogante. Enganei-me. Mal apresentado e conto uma piada ironizando os próprios portugueses. De minha parte, aproveitei o conjunto e gastei meu parco repertório de meia dúzia de anedotas sobre o mesmo tema e pronto, quebraram-se eventuais formalidades. Levei-o a se hospedar em hotéis e pousadas distintas e em dias diferentes, seu objeto de trabalho ou pesquisa. Mesmo achando-o bastante simpático, fiquei apreensivo pois guardava a nítida impressão de que acharia tudo precário e acanhado, já que estava acostumado a se instalar nos melhores hotéis do mundo. Ao final, comentei sinceramente sobre o conceito de alguns desses hotéis e falei a conhecer os principais restaurantes da região.

Nas nossas reuniões, enquanto esperávamos o almoço, esclarecia muito sobre a culinária portuguesa. Tentei me ensinar como cozinhar um camarão delicioso, refutei ao mencionar ser alérgico e nunca saberia o gosto. Ouvi sem opinar sobre a melhor técnica para preparar um prato que nunca nem provei. Passou a elencar os principais estabelecimentos de Lisboa - como se eu fosse para lá na semana seguinte - além de indicar os melhores hotéis em praticamente todas as cidades do Brasil, englobando qualidade e preço acessível. Concentrei-me mais, entretanto, sobre as lições relativas aos vinhos. Busquei, outrossim, ouvi atentamente aquelas verdadeiras aulas, tudo findava por ser bem proveitoso, aprender é uma dádiva.

Em toda a narrativa, o que mais me empolgava era a intensidade com que conduzia sua vida. Aos dezoito, servirá ao exército lusitano e lutará na guerra da independência de Angola. Na sequência, fora trabalhar na França por alguns anos, ainda bem jovem. Durante uma curta temporada de férias no Brasil, por dominar o idioma de Voltaire e Victor Hugo, foram convidados a trabalhar em hotéis de cidades diferentes: São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Manaus, entre idas e vindas. Veio parar por acaso em Fortaleza, depois de ter sido demitido, sair sem nenhum tostão furado do último emprego e não ter dinheiro para comprar a passagem de volta. Ficou, então, de vez no Ceará, inicialmente assumindo um trabalho ocasional, até se firmar.

Tão vasto currículo o cacifou ao longo das décadas como exímio em sua área, fruto de uma trajetória profissional relevante. Contudo, impactou o preço que destinava aos seus pequenos prazeres do cotidiano, valorizando-os ao extremo. Tratava-os quase como um ritual. Almoçava preferencialmente um peixe acompanhado de um bom vinho. Uma garrafa, a propósito, durava cerca de três refeições. Em seguida, acende um cachimbo, momento este em que se isolava um canto para fazer a digestão e não incomodar ninguém. Ao retornar à mesa, solicite uma xícara de café adicionando uma pequena dose de cachaça. Isso mesmo, uma bebida boa e velha essencialmente brasileira. No jantar, bastava apenas um sanduíche, nada mais. Dizia que como bom português era louco por pães. Para acompanhar, peça uma única garrafa de cerveja. Se alguém oferecesse uma segunda, gentilmente recusava. Era sua receita para permanecer sóbrio.

Não era muito afetado as práticas esportivas, a não ser uma caminhada obrigatória na praia. Dissertava extasiado e com os olhos marejados que adorava navegar no alto mar junto com humildes pescadores, amigos de longa data, num pequeno barco fechado na costa cearense. Concluída a pescaria, dividida o apurado incluindo generosamente na cota aqueles em terra firme impedidos de participar por motivos de saúde, idade ou doença. Depois, alegremente, preparou com apuro o peixe fresco, recém pescado, para servir à esposa e aos demais convidados em sua casa de praia. Felizardos que estou sorver da sua esmerada culinária.

A maior de todas as paixões é o deslumbramento que mantém desde criança em relação ao mar, talvez inspirado pelos versos “navegar é preciso, viver não é preciso” [1] , um ponto de repetir incessantemente que poderia viajar o mundo todo, mas se recusava a ficar muito tempo distante do mar. Não consigo dormir bem sem sentir o frescor da brisa marinha. Precisava navegar sempre e assim, ao sabor do sobe-e-desce incansável das marés, enfrentando os nevoeiros que surgirem, conduzindo despretensiosamente sua vida.

 

[1] Navegar é preciso, viver não é preciso e ou mar português . Fernanda Pessoa.