Esta seleta reúne poemas de Aristóteles Bezerra, marcados por devoção, memória e elevação moral. Em versos de dicção clássica, o poeta articula fé, saudade e homenagem, revelando um lirismo sóbrio e profundamente espiritual.
À MEMÓRIA DE MINHA MÃE
Deixaste a vida, Mãe, trocando as desventuras
Do Bem, do Amor, da Fé, quanto exemplo deste,
Aos que sabem querer o bem das coisas puras!
Espírito de eleita, ascendente às alturas,
A procura de Deus, a quem tanto quiseste,
Fugiste minha Mãe, a vida em que houveste
Com mártir, a quem santificam torturas.
Estás livre do mundo, onde foste heroína
Da bondade e da Fé. E a fé sempre domina
Os eleitos de Deus, que o mal nunca quebranta.
Estás longe de mim e te julgo mais perto!
Deixou-me a tua morte o coração refeito
De Amor, de Luz e Fé – Oh! Milagre de Santa.
Aristóteles Bezerra.
(Fonte: Transfigurações. Fortaleza,1937.)
À MEMÓRIA DO BARÃO DE STUDART
Grande batalhador de causas nobres
E do bem resoluto paladino.
Historiador, talento peregrino,
Este nosso Ceará tu nos descobres.
Sublimando a missão de vicentino,
Muito fizeste em vida pelos pobres.
Morreste. Ouço o planger de muitos dobres.
E morrer é de todos o destino.
Barão de Studart, vulto inconfundível,
Tu foste um bom, discípulo perfeito
De Vicente de Paulo, o grande santo
A memória terás imperecível
Da gratidão será eterno o preito
Dos teus pobres, a quem amaste tanto.
Aristóteles Bezerra
(Fonte: Revista do Instituto do Ceará, 1938. Tomo Especial. p. 69.)
CENAS DO CALVÁRIO
Maria, a Mãe de Deus, inda mais sofre agora,
Porque a turba dos maus mais e mais se exaspera
Fecha os olhos Jesus e abre os lábios: implora
O perdão, a favor daquela gente fera.
Há nuvens cor de luto, além, espaço a fora,
Da própria Natureza a dor já se apodera!
A Virgem Mãe de Deus sofre mais de hora a hora!
E esse martírio atroz a Virgem dilacera.
Mas a Mãe de Jesus, a dor maior suporta
E de Maria, a Fé, ao invés de ficar morta,
Aumenta, à proporção que o seu filho padece.
São três horas da tarde: a cena mais aterra!
O Sol perdeu a Luz... Jesus os olhos cerra
E, morrendo, dá vida ao perdão numa prece!
Aristóteles Bezerra.
(Fonte: A Razão. Rio de Janeiro, 25 de março de1937.)
ESTEIO DA MINHA FÉ
Jesus Maria e José,
Trindade santa e sagrada,
Dá-nos tributos de Fé
A minha alma amargurada.
Trindade sagrada e santa,
Jesus, Maria e José,
A minha alma vos decanta
Nos seus arroubos de Fé.
Jesus, Maria e José,
Três nomes santos, benditos,
Que fazem crescer a Fé
E dão consolo aos aflitos.
Jesus, Maria e José,
Trindade santa e querida:
— Esteio de minha Fé
— Amparo de minha vida.
Aristóteles Bezerra.
(Fonte: Poemas de Fé e Saudade, 1938.)
Os Reis Magos do meu Sonho
Vi em sonho os reis Magos, à procura
Do Menino Jesus, o sumo Bem!
De Jesus, a nascer na mais obscura
Manjedoura das terras de Belém.
Como ao presente a cena conjectura
Meu cérebro! E a sonhar quero, também
Ir contemplar um Deus feito criatura!
E sigo os Magos pela estrada além!
Sempre a estrela a fulgir à nossa frente!
Aumenta a minha Fé, fico contente
Na ânsia de prosternar-me ante Jesus.
Mas, hoje em dia, o mundo é tão ferino
Que aos Magos do meu sonho, o Deus Menino
Apareceu nos braços de uma cruz!
Aristóteles Bezerra.
(Fonte: A Razão: Independente, Político e Noticioso (CE) - 1929 a 1938. Ano: 1937 Ed. 357 – 10 de janeiro de 1937.)
SÃO JOSÉ
Dês pequenino a minha devoção
A São José, excede a minha estima
E digo sempre: — é teu meu coração
Favorece-o com a graça que o redima.
Se o pecado me arrasta a escravidão
De carne que pecando desatina
Recorro a ti. E além do teu perdão,
Nova Fé, meu espírito reanima.
E mais forte me julgo para a luta
Contra a vida terrena e dissoluta:
— Identidade do homem pecador
E de Jesus, o Pai nutrício, o Santo.
A quem meu coração estima tanto,
Nunca deixa de ser meu protetor.
Aristóteles Bezerra.
(Fonte: Transfigurações. Fortaleza,1937.)

