Reunidos nesta seleta, os textos de Arnaldo Lima mostram um autor que não suaviza arestas. Sua poesia, direta e analítica, expõe fissuras do cotidiano e desafia o leitor a abandonar interpretações confortáveis.

PENSAMENTOS 

  

A solidão do mar, 

O medo da chegada, 

A surpresa inesperada, 

O choque do encontro, 

O remorso da ausência, 

A felicidade mascarada, 

  

A liberdade desejada, 

O compromisso com nada, 

A certeza planejada. 

Para a paz tão esperada, 

Sentimentos... 

... Esquecimento. 

Esqueci de ti em devaneios 

E senti o gosto da vida. 

O ódio veio primeiro, 

A beleza do amor, em seguida 

Sentimentos... 

... Esquecimento. 

Eu sinto o prazer, 

Mas não alço voo. 

Luto pela liberdade, 

Mas fujo da conquista. 

Sentimentos... 

Pensamentos... 

... Esquecimento. 

Sofro sem razão. 

Medo... 

Apenas, medo. 

  

Arnaldo Lima


 

COLETIVOS 

  

Rostos na vidraça,  

Aves alucinadas,  

Cabelos arrepiados,  

Perfume com cachaça. 

  

Calor que abrasa,  

Empurra pra todo lado.  

Corpo e pé machucado,  

Carro louco que passa. 

  

Menina amassada,  

Velhinha ignorada,  

Motorista mal-educado. 

  

Troco mal-dado,  

Cobrador medroso,  

E eu... Nervoso. 


 

A CIDADE DORME 

  

As ruas estão frias, 

Vazias, 

As mulheres sorrindo, 

Dormindo. 

  

Os sonhos cansados, 

Acordados. 

E os soldados de plantão, 

Solidão. 

Os homens divertindo-se, 

Iludindo-se. 

As promessas soltas, 

Às bocas. 

As carícias ousando, 

Desafiando. 

A janela aberta, 

Certa. 

O toque na porta, 

Morta. 

O entrar sorrateiro, 

Primeiro. 

O amor sem amor, 

Dor. 

A descoberta do sexo, 

Sem nexo. 

A angústia incerta, 

Liberta. 

O barulho conforme 

A cidade dorme. 

  

(Arnaldo Lima)