A obra de Jefferson Nogueira revela um poeta que transforma mágoa em ritmo e memória em cena. Seus poemas, densos e diretos, desnudam o drama humano com precisão quase teatral. Esta seleta captura esse pulso.

POR ESSE AMOR


 
Por esse amor, totalmente fiel 

e firme e constante serei então. 

Seja no doce ou no fel, 

não farei meu amor vão. 

 
Por ele serei campina, serei prado 

com flor e frutos constantes; 

farei tudo ao seu agrado 

a todo momento, todos os instantes. 

  

 
Por esse amor serei torrente 

que devasta uma cidade inteira 

e a tudo consigo traz. 

 
Viverei esse amor plenamente, 

como se fosse a chance derradeira, 

como se amar não fosse mais. 

  

(Jefferson Nogueira) 


 

SUFOCA-ME!


 
Sufoca-me para que palavras estranhas 

não se desprendam de meu mundo 

e ao penetrar tuas entranhas 

azedem em teu coração profundo. 

 
Para que não te vomite as muitas mágoas, 

as angústias que senti. 

Lágrimas derramadas, muitas águas 

dos agravos que a seco engoli. 

  

 
Sufoca-me antes que a tudo destrua. 

Ouça aquele que implora 

pela única coisa que ousa pedir. 

 
Faça antes que minha voz fique nua. 

Sufoca-me! Faça-o agora 

antes que eu o faça a ti. 

  

(Jefferson Nogueira) 


 

AMOR 


  

Ah! Quem dera, amor! 

Amor. Quem dera! 

Deras a quem 

O amor que dera? 

  

Quem dera amor? 

Deras a quem, amor? 

Quem?! 

Dera que amor? 

Que amor! 

Quem dera amor, 

A-MOR-TE-DE-RA. 

  

  

(Jefferson Nogueira) 


 

DIÁRIO DE ADOLESCENTE

 
  

No auge do fatídico dia, 

O diário, no chão, ela abria. 

Abertura de toda sua vida. 

Vitalícia paixão, porém, perdida. 

  

  

Perdição que alguém lá plantara. 

Broto ainda tão tenro, arrancara 

No arranco da fuga que dera. 

Dedo infame! Nem carta escrevera. 

  

E nos versos de seu sentimento, 

Sensação de sangue por dentro, 

Adentrando as barreiras da morte, 

Sepultando nas folhas sua sorte. 

  

(Jefferson Nogueira)


 

POETO SÍNTESE 
  

  

Artigos e cartas guardo por sobre mim. 

Lembrando das idas sem voltas, 

De tudo que chegou ao fim. 

  

Discursos, ensaios, contos que não conto, 

Não pensava que depois de tantas reticências 

Eu encontraria um ponto. 

Roteiros, capítulos que nunca se encerrarão, 

Como um compasso sem laço que 

Amarra toda a canção. 

  

A vida é mesmo uma novela, 

Onde o último beijo 

Pode ser dele ou dela. 

Muitos monólogos continuarão assim, 

Como uma tese ou documentário 

Que nunca chega ao fim. 

  

Ensaio um teatro em meio à multidão, 

Sem saber ao certo se os aplausos virão. 

Tudo é tão coeso embora nunca nos vimos, 

É estranho enfrentar a comédia 

Do drama que todos nós sentimos. 

O amor, a dor... 

São meros lençóis que alimentam lágrimas, 

Nas rochas profundas do mundo das fábulas. 

Pois toda inocência nos faz acreditar, 

Que em cada canto existe alguém a nos esperar. 

  

A vida é mesmo uma peça em seu apogeu, 

Onde o último beijo 

Pode ser o meu. 

É com uma crônica, tão vil e tão cômica 

Onde escondo minha opinião, 

Embora o que eu sinto, o que escondo, o que minto, 

Esteja gravado na minha mão. 

  

  

(Jefferson Nogueira)

  

RECITAL 

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Poeto Síntese. Jefferson Nogueira. 

Intérprete: Marciano Ponciano. 2008.