A poesia de Jéssica Sombra revela uma escrita que transita entre a delicadeza e o impacto, condensando afetos em imagens breves e incisivas. Nesta seleta, sua voz afirma uma sensibilidade que transforma o instante em gesto poético de rara precisão.

BILLY 
  

Estavas cansado demais. 

Te dei meu sono. 

Foste embora tão cedo, 

Sem me dizer o preço 

De uma vida. 

  

Dívida de amigo. 

Em troca, 

Darei teu nome à lealdade. 

Era manhã de domingo. 

Lágrimas amargas competiam com o café. 

  

  

(03.12.06) 

  

(Jessica Sombra de França) 

 

RECITAL 

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Billy. Jessica Sombra de França. 

Intérprete: Regina Oliveira. 2008. 


 

DIA GRIS 
  

Sente-se bem, meu bem, 

Quando se está só. 

Sente-se frio a quarenta graus. 

  

Quarenta dias se passam 

Sem que se note. 

Note-se bem. 

  

Ouve-se música 

Exógena. 

Sempre em Dó. 

Dó (cada vez) maior. 

Pauta-se em Lá. 

Vontade de lá estar. 

  

Sofre-se. 

Espera-se... 

  

(Jessica Sombra de França) 


 

MIOSÓTIS 
  

Aproximei-me de ti com brusquidão, 

Como resposta felina ao instinto 

Mais inexpugnável. 

Animália mitigada por teu aroma. 

  

Antes tarantela dissonante. 

Eis que em ti encontrei 

Sinfonia anímica. 

Clave de Sol. 

Meu sol. 

  

Destrói-me o brio, 

Mas sê meu baluarte. 

Esfacela-me a carne, 

Mas me deixa estar contigo. 

E, por fim, ama-me. 

  

(Jessica Sombra de França)