Manoel, o pai de Chico, motivado pelo cultivo da borracha na região Norte, partiu em busca de melhores oportunidades no Amazonas, assim como muitos dos seus conterrâneos. Todavia, pouco tempo depois, veio a falecer, deixando-o órfão, com apenas oito anos de idade. Ao tornar-se viúva, Matilde optou por entregar o pequeno filho aos cuidados do comendador português José Raimundo de Carvalho, proprietário da embarcação “Tubarão”, que se destinava a fazer transportes de mercadorias ao longo da costa nordestina.
No início, Chico era encarregado de transmitir recados, mas aos poucos foi se adaptando ao trabalho em meio a embarcações, aprendendo daí os segredos da profissão de navegante, galgando posições, de membro da tripulação até o posto de comandante. Posteriormente, trabalhou na construção do porto de Fortaleza e foi chefe dos catraieiros. Também alugava jangadas para o transporte de pessoas e mercadorias. Anos depois, diante da sua habilidade extrema na condução de embarcações, foi nomeado como prático-mor da Capitania dos Portos do Ceará.
Não há muita informação acerca do nível de escolaridade de Chico da Matilde. O biógrafo Edmar Morel[1] apontava que “... ele foi basicamente analfabeto até a idade adulta e nunca foi formalmente educado. É impressionante o fato de que ele aprendeu a ler quando muitos de sua classe não o fizeram.” Morel destaca ainda a “capacidade de liderança”, “inteligência” e que, em virtude dessas características, “tornou-se líder entre os companheiros de jangada e ganhou posição de destaque nas docas do porto.”[2]
Casou-se à primeira vez com Joaquina Francisca e residiam em Fortaleza, numa região próxima ao Seminário da Prainha, na esquina noroeste das ruas Dragão do Mar e Senador Almino, sem numeração oficial, cujo imóvel atualmente encontra-se desativado, na Praia de Iracema.
Na época em que viveu Nascimento, no Império, a economia era baseada nos interesses dos grandes latifundiários e a produção brasileira era centrada na exploração da mão de obra escravizada, entretanto, por pressão de diversas sociedades abolicionistas, aos poucos eram editadas leis que visavam acabar com a tragédia humanitária do tráfico negreiro, como a Lei Eusébio de Queiróz, que proibia o tráfico de escravizados para o país vindos de outros continentes. No entanto, tais medidas não tiveram o condão de impedir o tráfico negreiro entre os portos brasileiros.
Realidade que passou a ser bem conhecida por Chico: “Nascimento sempre alimentou forte o ódio da escravidão. Quando jovem, ouviu a história de uma revolta de escravos em um barco chamado Laura Segunda e isso o marcou profundamente. A história conta que dezesseis homens de cor e um homem branco mataram um capitão de navio porque ele os tratou mal. Tais homens foram capturados em Aracati e condenados à prisão com exceção do líder que foi assassinado.” [3]
Igualmente, em Fortaleza, foram criadas inúmeras sociedades dedicadas à causa abolicionista. A Sociedade Cearense Libertadora foi considerada a maior entidade abolicionista fora do Rio de Janeiro, fundada pelo comerciante João Cordeiro e contava com cerca de 227 membros, tendo se reunido pela primeira vez em 30 de janeiro de 1881, com diversas palestras. O primeiro ato programado logo lhe traria fama nacional: defenderiam o boicote ao embarque no porto de Fortaleza de escravizados vendidos para o sul do Brasil.
Intelectuais abolicionistas discursavam incentivando os jangadeiros a não embarcarem mais negros escravizados no porto de Fortaleza. Os jangadeiros sugeriram um deles, José Napoleão, alforriado, como representante.
José Napoleão, porém, recusou a tarefa e indicou Chico da Matilde para ocupar tal função. Naquela ocasião, Chico não atuava mais como jangadeiro e, sim, como prático. Por ser instruído, articulado, bem relacionado e se vestir de modo impecável, transitava facilmente entre os humildes trabalhadores do mar e a elite intelectual. Seria, assim, muito mais útil para arregimentar os demais companheiros.
Tão logo fora referendado pelos colegas, Francisco José do Nascimento imediatamente deixou suas jangadas à disposição do movimento, comandando as greves de trabalhadores do porto e aderindo de vez à causa abolicionista. Sua então esposa, Joaquina Francisca, também era simpática ao movimento.
O primeiro ato grevista ocorreu em janeiro de 1881. Alguns negros escravizados seriam vendidos para o Rio de Janeiro e esperavam o embarque, quando os jangadeiros - responsáveis pelo transporte entre o cais e o navio - se negaram a embarcálos, liderados por Chico da Matilde. Ainda como parte do piquete, os navegadores incendiaram um prédio nas imediações do porto e permitiram a fuga de pelo menos nove escravizados.
Os jornais de Fortaleza, de 07 de fevereiro de 18814, noticiavam o seguinte:
“Lá estavam os jangadeiros prestando os valiosos e indispensáveis serviços de sua profissão. A eles pois, se dirigiram os negreiros solicitando o embarque dos infelizes que destinavam a vender no sul.
No porto do Ceará não se embarca mais escravos!
Esta resposta terminante e decisiva partiu ao mesmo tempo de todos os lábios. Não se sabe mesmo quem primeiro a proferisse. Era uma ideia que estava em todas as inteligências um sentimento que brotava em todos os corações. Os negreiros recorreram a todos os expedientes: oferecimento, promessas, suborno, ameaças; tudo, tudo foi baldado. Provocaram mesmo a indignação pública que os apupou convenientemente, sem injuriar pessoas e sem a ofensa física.”
Ainda em 1881, em agosto, a Sociedade conseguiu reunir seis mil pessoas diante do porto, quando houve outra tentativa frustrada de embarque.
Edmar Morel[4] assim descreveu os acontecimentos: “reunidos num subúrbio, os libertadores, já com o apoio de Francisco José do Nascimento, resolvem aceitar a porfia e impedir o embarque das suas caravanas, por qualquer preço. Os jangadeiros deixam as suas palhoças e vêm à praia”. Portanto, instigados por Chico da Matilde, o movimento conseguiu impedir que navios negreiros atracassem em pelo menos duas grandes manifestações, em janeiro e agosto de 1881. Pelo porto de Fortaleza ecoavam os gritos de que “no Ceará não se embarcam mais escravos”.
Ao tomar conhecimento do engajamento de Chico da Matilde no movimento grevista, em represália, imediatamente o presidente da Província do Ceará determinou a demissão do seu cargo na capitania dos portos. Tal perseguição não arrefeceu o ímpeto de Chico da Matilde que passou a integrar oficialmente a “Sociedade Cearense Libertadora”, juntamente com grandes nomes da elite cearense.
O Exército, atônito, diante da proporção que tomou o movimento, se recusava a reprimir os grevistas, motivando o governo imperial a transferir todo o batalhão para Belém, como punição militar, mas, na data em que seriam transferidos, em reconhecimento, a Sociedade reuniu um número de 15 mil pessoas que aplaudiram os soldados que deixaram de reprimir os manifestantes.
Durante todo aquele ano de 1881, a Sociedade se engajou em diversas ações, emitindo cerca de 379 cartas de alforria em seus eventos, sempre em teatros lotados. Na Vila do Acarape (atual Redenção), por exemplo, alforriaram todos os escravizados. Em seguida, outros movimentos semelhantes acarretariam a pressão popular para que houvesse a abolição da escravatura em terras cearenses cerca de quatro anos antes da Lei Áurea, de 13 de maio de 1888.
Com a repercussão do movimento em todo o Brasil e ao ter aderido em definitivo à causa abolicionista, Chico da Matilde partiu no dia 14 de março de 1884 através do vapor Espírito Santo em direção ao Rio de Janeiro, na companhia dos jangadeiros Francisco José de Alcântara e José Félix Pereira.
Ao desembarcarem na então capital federal, em 24 de março de 1884, foram recebidos efusivamente com quermesses, peças teatrais e concertos. Inúmeras pessoas se aglomeravam para vê-lo de perto. Exatamente neste momento, o Francisco José do Nascimento foi epitetado como Dragão do Mar, sendo manchete nos jornais:
“A decisão cearense foi celebrada em todo o Brasil com desfiles, concertos, saraus e outras manifestações de júbilo. No Rio de Janeiro, a Gazeta de Notícias saiu com edição especial dedicada ao evento. Francisco Nascimento, o Chico da Matilde, herói dos jangadeiros cearenses, foi recebido na cidade com honrarias e glórias. Uma regata na enseada de Botafogo com sua presença atraiu cerca de 10 mil pessoas. Teria sido ali que ganhou o apelido pela qual desde então seria conhecido: DRAGÃO DO MAR.”[5]
No dia seguinte, em 25 de março de 1884, foi proclamada a abolição da escravatura do Ceará, transformando imediatamente o Dragão do Mar num símbolo desse acontecimento histórico.
Anos depois, Chico da Matilde ficou viúvo. Em 13 de maio de 1902, aos sessenta e três anos, contraiu novas núpcias, dessa vez com Ernesta Brígida dos Santos, na época com 40 anos de idade. Viria a falecer doze anos depois, em 06 de março de 1914, em virtude de arteriosclerose.
Francisco José do Nascimento teve seus feitos reconhecidos e recebeu inúmeras homenagens espalhadas pelo Brasil. A mais importante, sem dúvida, foi a inclusão do seu nome no Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves.
Um herói que, indignado com a situação degradante à qual seus semelhantes eram submetidos nos porões de embarcações, vendidos como mercadoria, açoitados, mortos, separados de seus lares e familiares, num dos períodos mais nefastos, se indignou, liderou uma rebelião que mudou o curso da História e foi decisivo para a abolição da escravatura, primeiro no Ceará, a Terra da Luz, e depois no Brasil todo.
Na labuta, se solidarizou com a dor dos escravizados. Incentivado por abolicionistas, liderou seus amigos provando que no porto do Ceará não se embarcavam mais escravizados. Marcou o seu nome como herói mesmo sendo filho de um jangadeiro e de uma rendeira, de origem mestiça, sem escolaridade, oriundo de uma vila de pescadores. Depois, mesmo perseguido, permaneceu na luta até que a escravidão fosse abolida de vez.
Seu nome era Francisco José do Nascimento, simplesmente Chico da Matilde, eternizado como Dragão do Mar.
Nota: Escrito com a colaboração da estudante Laura Praça.
[1] XAVIER, Patrícia Pereira. “História, Memória e Historiografia: o Dragão do Mar na escrita de Edmar Morel (1949)”. 2009.
[2] MOREL, Edmar. “Dragão do Mar. O Jangadeiro da Abolição”, 1949.
[3] https://seguindopassoshistoria.blogspot.com/2021/02/o-escolhido-dragao-do-mar.html#google_vignette, 4 Braga, Jorge. “Aracati- Contribuição à sua História”, p.77.
[4] MOREL, Edmar. op.cit.1949, p.79)
[5] Gomes, Laurentino. Escravidão – vol. 3, p. 431.
