Memória

Thursday, 09 April 2026 14:15

DO SONHO À REALIDADE: OS 70 ANOS DO HOSPITAL SANTA LUÍSA DE MARILLAC

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Fotomontagem. 1. Dispensário dos Pobres. Década de 1930. 2. Ir. Oliveira. Fotomontagem. 1. Dispensário dos Pobres. Década de 1930. 2. Ir. Oliveira. Acervo de Netinho Ponciano e do ISJ respectivamente

A história da saúde em Aracati é marcada por feitos que ultrapassam a frieza das datas técnicas; são monumentos erguidos pela “vontade de ferro” de seus cidadãos e pelo zelo apostolar das Filhas da Caridade. Ao celebrarmos os 70 anos do Hospital Santa Luísa de Marillac, fundado oficialmente em 1956, voltamos o olhar para dezembro de 1939, quando uma semente de esperança foi lançada no auditório do Patronato São José.

Em 1939, a sociedade local, mobilizada pelas Senhoras de Caridade, compreendeu que a cidade carecia de um abrigo para os “desprotegidos da sorte” nos momentos de enfermidade. Naquela memorável reunião, figuras ilustres como o Dr. Audálio Costa, o Dr. Castro Meireles e o Dr. Eduardo Alves Dias, este último, mentor incansável das causas sociais, aclamaram a fundação do que, inicialmente, seria o Hospital São Vicente. O Dr. Audálio Costa destacou que a obra beneficiaria aqueles que não dispunham de um local digno para tratamento. Ali, a diretoria provisória recebeu plenos poderes para organizar o patrimônio, marcando o início de uma jornada de fé.

Nos arquivos da Irmã Oliveira, encontramos evidências valiosas do fortalecimento dessa obra nos anos que se seguiram à fundação oficial. Identificada como a quinta diretora do Instituto São José, ela chegou a Aracati às 10h do dia 22 de maio de 1957, acompanhada da Irmã Assistente. Já instalada, a religiosa registrou o compromisso de “melhorar ou dar um pouco de conforto” não apenas ao Ginásio São José e ao Patronato, mas, de modo especial, ao Hospital Santa Luísa de Aracati.

Seus escritos revelam uma gestão vigorosa. Em novembro de 1957, ela coordenou a continuidade das obras, supervisionando detalhes essenciais como o forro, o piso, a sala de operações, a pintura geral e o muro. O protagonismo da Irmã Oliveira manifestou-se na capacidade de converter a solidariedade local em estrutura hospitalar: registrou doações fundamentais da Prefeitura Municipal, que cedeu camas, mesas de cabeceira e material cirúrgico, além de contribuições de cidadãos como o Sr. Pinto (camas e mesas de curativo) e Dona Vilanel Barbosa (armário de ferro). Com recursos próprios  ou por ela arrecadados, comprou pessoalmente cadeiras, birô e uma cadeira giratória para os médicos, garantindo a funcionalidade clínica da unidade.

A visão administrativa da Irmã Oliveira estendeu-se à sustentabilidade da obra. Em 1960, ela adquiriu uma casa para o hospital, concluiu sua construção e passou a alugá-la, em 1961, para gerar renda. Comprou ainda um terreno e uma oficina vizinhos ao hospital, destinados ao depósito de material. Para financiar tais avanços, promoveu quermesses em 1960, jantares de Santo Antônio e festivais de São João, mobilizando a “elite” e o povo em prol da saúde. Sua partida, em 2 de fevereiro de 1964, encerrou um ciclo de sete anos em que a “oficina do bem” se transformou em um hospital moderno para os padrões da época.

Embora o nome inicial remetesse a São Vicente de Paulo, a consolidação sob a denominação de Hospital Santa Luísa de Marillac reflete a maturidade do projeto e a homenagem à cofundadora da Ordem. Santa Luísa, no século XVII, foi decisiva na reforma do atendimento hospitalar na França; esse carisma foi personificado em Aracati pela dedicação das irmãs e pelo apoio incondicional de figuras como o Dr. Eduardo Alves Dias, que entregou saldos financeiros de outras obras para assegurar a continuidade da construção.

Hoje, aos 70 anos, o Hospital Santa Luísa de Marillac permanece como “doce abrigo” para os que sofrem, reafirmando Aracati como espaço de pertencimento e transformação social. O sonho de 1939 tornou-se realidade em 1956 e consolidou-se sob a batuta firme da Irmã Oliveira, provando que o legado das “mulheres fortes” e dos homens de boa vontade atravessa gerações.

 

REFERÊNCIAS


ARACATI TERÁ UM HOSPITAL PARA OS POBRES. O Jaguaribe, Aracati, dez. 1939. p. 7.

GOMES, Dom Manuel da Silva. Carta ao Dr. Eduardo Alves Dias. Fortaleza, 23 dez. 1932.

OLIVEIRA, Irmã. Caderno de Anotações (1957-1964). Aracati: Arquivo do Instituto São José / Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo, [s.d.]. p. 1, 2, 6, 8, 9, 16.

PATRONATO SÃO JOSÉ - CASA DE DEUS E OFICINA DO BEM. O Jaguaribe, Aracati, out. 1942. p. 4.

PATRONATO SÃO JOSÉ. O Jaguaribe, Aracati, dez. 1933. p. 3.

SALDO DO INSTITUTO SÃO JOSÉ ENTREGUE AO DISPENSÁRIO PELO DR. EDUARDO DIAS. O Jaguaribe, Aracati, 12 ago. 1934. p. 2.

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Marciano Ponciano

MARCIANO PONCIANO- Sou natural de Aracati-Ce, terra onde os bons ventos sopram. Na academia da vida constitui-me poeta, realizador de sonhos, encenador de máscaras. Na academia dos saberes acumulados titulei-me professor de Língua Portuguesa e especializei-me em Arte-Educação. O projeto de vida é semear a arte por onde passe: teatro, poesia, artes plásticas- frutos da experiência acumulada em anos dedicados a ser feliz. Quando me perguntam quem sou - ator, poeta, encenador, artista plástico, educador? Afirmo: - Sou poeta!

Publicou:

Poetossíntese. Coletânea de poemas. Ed. própria. Aracati-CE. 1996.

Caderno de Literatura Poetossíntese. Coletânea de poemas. Ed. Terra Aracatiense. Aracati-CE. 2006.

aracaty. Cadernos de Teatro. Ed. Terra Aracatiense. Aracati-CE. 2010.

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O Grupo Lua Cheia, com sede na cidade de Aracati-CE, é um coletivo de artistas formado em 1990 com o objetivo de fomentar, divulgar e pesquisar a arte e a cultura.