Naquelas paragens, como ele próprio gostava de afirmar com a convicção de quem conhece o terreno, ninguém escapava ao batismo popular. Branco ou preto, magro ou gordo, alto ou baixo, ajeitado ou desalinhado, todos, sem exceção, acabavam recebendo da boca do povo um segundo nome, desses que grudam mais do que certidão. Era lei tácita da terra, costume antigo que não perdoava vivente.
Foi, pois, plenamente consciente desse destino que o Embaixador dos Sertões, como o povo o alcunhava com carinho, aceitou o convite para fazer uma conferência em Aracati. O evento se daria no Cinema Popular, anexo ao Bar Maison Moderne, na antiga rua do Comércio nº 231[1], hoje Cel. Alexanzito nº 1020, endereço que por muitos anos serviu de palco a memoráveis acontecimentos políticos e sociais.
Leota, como preferia ser chamado, era um homem gordo, baixo, grosso, sem cintura, de cara sempre risonha. E, embora tais atributos físicos pudessem facilmente atrair a jocosidade alheia, com ele sucedia o contrário: por onde passava, era recebido com encômios, ganhando do povo epítetos honrosos como Mistral brasileiro e Rondon das letras matutas.
Ao findar a conferência que proferira sobre o Capistrano Abreu anedótico, diante do elitizado público aracatiense, Leota manifestou o desejo de conhecer nossa Castorina Pinto e, mais ainda, de ser por ela rebatizado, levando consigo um apelido aceitável como lembrança da terra.
O Cel. João Porto Caminha, anfitrião da festa, fez então as mesuras de praxe:
— Castorina, eis aqui o Embaixador dos Sertões.
Com sua imensa expansividade, reforçada pela protuberante barriga que se destacava à primeira vista, Leota adiantou-se:
— Estou à espera de ser batizado!
Castorina Pinto, que nunca fora de recuar nessas situações, dessa vez deixou-se vencer por uma ponta de timidez e se esquivou com um sorriso. No entanto, ao se retirar, não resistiu e confidenciou a João Porto:
— O Barriga de Bispo tem tutano!
[1] Atualmente, rua Cel. Alexanzito nº 1020.
