Arte

Monday, 15 June 2026 07:46

AS FOTOS DO PASSADO

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Colagem Digital: Marciano Ponciano Colagem Digital: Marciano Ponciano

Cadu fixou a retina em antigas fotografias guardadas numa caixa esquecida num armário do apartamento da mãe. Nelas, dentre uma equipe perfilada, seria ele um jovem de rebeldes cabelos encaracolados, rosto afilado, pescoço cumprido que, junto aos seus colegas de equipe, comemorava um título qualquer naqueles antigos campos de várzea, de terra batida.

A camisa rubro-negra, de faixa central grossa, inspirada no Flamengo com patrocínio LUBRAX, entregava mais ou menos qual fora o ano do campeonato. Muitos desses momentos permaneciam bem nítidos na memória e logo se lembrou dos pivetes em torno do carrinho de picolé à beira das invisíveis linhas do campo, do vira-lata preto e branco invadindo a área do goleiro na hora do ataque, dos torcedores nervosos com medo de perder a aposta, da inocente namorada, tímida, a espiar sozinha sentada na arquibancada de madeira, do pai misto de dirigente e técnico a discutir com o compadre a melhor formação tática. Era um cenário bem diferente dos atuais campos sintéticos padronizados como “Areninhas”.

Nessa sequência de fotos, alongava-se, corria e chutava a gol no campo do clube em que treinava, recordando-se com raro sorriso que em breve seria apontado como uma revelação daquele grupo, um meiocampista habilidoso, estilo armador. Alguns observadores mais tarimbados indicavam que poderia ser aproveitado nas categorias de base de um dos grandes times da capital. Era um talento promissor a ser lapidado, davam corda.

Ao remexer naquele amontoado, pegou uma foto em que o pai estava deitado numa rede branca, rodeado de jornais, revistas Placar e Veja, enquanto buscava sintonizar o rádio na transmissão esportiva. Parecia ouvi-lo comentar sobre duas propostas - nunca se soube de onde surgiram ou se eram lendas - de que olheiros teriam visto o Cadu jogar e que o técnico Cilinho queria levá-lo para o São Paulo e Telê Santana para o Atlético. O velho gabava-se de que preferia ver o filho, elegante, tocando a bola de cabeça erguida com a camisa alviverde do Palmeiras, tipo o divino Ademir da Guia.

Mais acima da estante, tomado pelo mofo, havia ainda um álbum menor com o logotipo da Aba Film contendo registros de um pequeno tanque, de formato redondo. Nele, um Cadu ainda pequeno brincava de redemoinho e mergulho ao lado de crianças da vizinhança que - como ele - carregavam sonhos irrealizáveis.

Via a si mesmo também em fotos a usar uma cueca vermelha chupando manga e caju direto do pé no sítio do Eusébio e, com mãos na cintura, em frente ao engenho, cuja imagem logo lhe remontava ao cheiro da fumaça da cana moída preparando a rapadura. Noutra, estava todo mijado no colo do avô careca, de óculos grossos e de expressão firme. Mais abaixo no álbum, com cara de valente, aos cinco anos, posava junto ao irmão ambos fantasiados de Homem-Aranha e, no registro do aniversário seguinte, vestido de pirata, de mãos dadas com a mãe ainda bem jovem e com a irmã que segurava com a outra mão um copo de refrigerante. 

Em outra dessas fotos, o sagitariano Cadu pulava inconsequente das ruínas da velha ponte metálica para o mar de Iracema, de onde, anos depois, vindo de uma noitada no Cais Bar, jogaria o anel de compromisso ao término de um noivado e, em testamento, rogou que fossem lançadas suas cinzas.

Tudo aquilo ocorrera há bastante tempo. Muitos sonhos se perderam, como o do jogador que poderia ter sido se não fossem as necessidades outras da vida, a concorrência afunilada e um joelho esquerdo estourado de vez. Muitas águas rolaram e ele próprio mudara tanto fisicamente que os amigos da atualidade não o apontariam naqueles retratos. Achariam que era outra pessoa, não tinha nada a ver com ele.

O rosto precocemente envelhecido era decorrência do comportamento autodestrutivo após um acúmulo de experiências negativas ao longo da existência de alguém que não aprendera a lidar com as decepções, descontando compulsivamente no excesso de bebida, cigarro e comida as inúmeras frustrações, inclusive no campo amoroso.

Ao pensar nisso, Cadu passou a perquirir se aquilo tudo havia acontecido mesmo naquela existência ou se em outra encarnação. Olhava-se deprimido para o espelho, tentando relembrar quem de fato era, comparando com aquele possível impostor nas fotos. Confuso, teve a impressão de ser uma pessoa diferente, por estar tão pálido, envelhecido, sem vivacidade. Não se enxergava mais ali. Tal como a canção do Leoni, não se reconhecia mais “olhando as fotos do passado”, como se fosse um “estranho dublê de retratos”[1].

Entretanto, era ele, sim, e aquelas fotos revelavam que antes fora muito feliz e poderia muito bem aprender o caminho de volta.

 

[1] Doublé de corpo (Carlos Leoni Rodrigues Siqueira Junior - Leoni; Luiz Fernando Martin Lima - Lulu Martin) 

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Lucio Telmo

Lucio Telmo Meireles de Oliveira Jr. é natural de Fortaleza-CE, mas reside em Aracati-CE há cerca de 20 anos. É advogado formado em Direito pela UNIFOR. Durante muitos anos, foi professor universitário e ocupou cargos públicos em Aracati e Mossoró. É um dos membros fundadores da Academia Aracatiense de Letras e articulista da Revista Gente de Ação desde 2014.

É autor dos seguintes textos:

Guarda Compartilhada: Aspectos jurídicos da gestão conjunta da guarda dos filhos (2002);

O pagamento e o parcelamento como extinção da punibilidade nos crimes contra a ordem tributária (2006);

Meu coração não é meu (2010),

Zé Costa (2013),

Liberato, o conselheiro do Império (2015)

Quando o Olho Brilhou (2017).

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