O tão esperado acontecimento, que logo se transformou numa imensa manifestação popular, ocorreu no dia 10 de julho de 1926, um sábado, precisamente às 15h55. Depois dos procedimentos de abastecimento — mais de 500 litros de gasolina —, os aviadores se prepararam para receber as boas‑vindas das autoridades e da população que os aguardava à margem direita do rio Jaguaribe, no Porto José Alves. Eduardo S. Olivero era o mais popular dos pilotos civis argentinos, tendo larga atuação na guerra europeia, onde alcançou o posto de capitão do Exército Italiano. Já Bernardo E. Duggan figurava entre os mais distintos corredores argentinos, detentor do recorde das lutas automobilísticas da América do Sul.
Segundo registrou o jornal A Região[1], os heroicos pilotos que nos visitam receberam, no instante em que pisaram a terra aracatiense e ao som do Hino Argentino, os cumprimentos da comissão organizada para esse fim, composta pelos senhores Dr. Heribaldo Costa, Plínio Ozório, Ezequiel Silva Menezes, entre outras autoridades, todos acompanhados por uma multidão de entusiastas e curiosos vindos de toda a redondeza.
O periódico prossegue contando que uma comissão de distintas senhoritas fora formada para ofertar aos ilustres viajantes lindos ramalhetes de flores naturais. Depois disso, organizou‑se um animado corso de automóveis, levando Duggan e Olivero pela principal artéria da cidade, para que o povo pudesse vê‑los de perto. E, como não poderia faltar num acontecimento dessa grandeza, a noite reservou um gesto de fina hospitalidade: no palacete do Coronel Alexandre Matos Costa Lima, realizou‑se uma recepção em homenagem aos denodados aviadores, que ali foram celebrados como verdadeiros heróis do ar.
O folclore da cidade conta que, entre as senhorinhas presentes à recepção no palacete do Cel. Alexanzito Costa Lima, achava‑se também nossa estimada Castorina Pinto. E, fiel ao seu magnífico senso de observação, não deixou de reparar na aparência do piloto argentino Eduardo Olivero, que, em razão de um sério desastre de aviação, perdera o nariz e as orelhas. Na manhã seguinte, 11 de julho, logo cedo, os pilotos seguiram para o Porto José Alves, onde já os aguardava uma incomputável multidão, além de um seleto grupo de senhorinhas da mais fina sociedade aracatiense, todas desejosas de levar suas despedidas aos arrojados aviadores.
O Savóia S‑59 mal havia sobrevoado a Barreira Preta quando começaram a pipocar as bisbilhotices. Na roda da Calçada das Sebinhos, comentava‑se que Castorina — que nunca tivera sorte com os homens, como ela mesma fazia questão de afirmar — alimentara certa esperança de que a chegada dos aviadores argentinos lhe trouxesse, enfim, uma chance de despachar a solteirice. Mas não foi o que aconteceu. Em conversa com uma amiga, teria confessado:
— Biá, o mais velho era simpático, mas com aquela Cara de Garrafa dele… nem com avião.
Ela, claro, se referia ao Cel. Eduardo Olivero.
[1] Jornal semanário publicado em Aracati de propriedade de Ezequiel da Silva Menezes.
