Para abrilhantar ainda mais a festividade, convidaram um ilustre professor de Direito, homem tido e havido por seus dotes de inteligência e vasta cultura. Já aposentado do ofício, mas ainda de palavra fluente e gosto pela tribuna, o prestimoso convidado havia militado na política do Aracati e redondezas, chegando, não sem esforço e ambição, a ocupar altos cargos eletivos.
Sua figura chamava atenção de longe: a cabeleira vasta, de um tom avermelhado tão vivo que parecia arder, como se uma labareda lhe brotasse da cabeça. E, quando abria a boca, incendiava ainda mais. Naquela noite, inflamado pelos ventos revolucionários que sopraram em outubro de 1930, lançou-se em oratória arrebatada, dessas que não pedem licença para entrar no ouvido alheio.
O advogado, já tomado pelo fervor da própria importância, ergueu o queixo, ajeitou a cabeleira flamejante iniciou, com aquela cadência vívida de quem acredita estar prestando um serviço à humanidade:
— Aracati, minha gente culta e ilustrada, encontra-se, permitam-me o termo técnico, no seu muitíssimo de decadência, um estado tão lastimável que, se não fosse trágico, seria quase didático. Vai ela, paulatinamente, engolfando-se. Sim, engolfando-se! No abismo do mais completo aniquilamento moral, social e, ouso dizer, até atmosférico. Esta cidade, que viveu outrora fases agitadas, momentos gloriosos, dias de uma emotividade rejuvenescedora e vibrante, hoje se encontra reduzida a uma verdadeira química de águas estagnadas, uma solução morna e inativa, incapaz de qualquer efervescência cívica.
Fez uma pausa dramática, como quem espera aplausos por ter dito “química” em discurso público, e prosseguiu, ainda mais empolado:
— E seus filhos, esses mesmos que deveriam estar à frente do seu destino, em vez de tê-la como mãe — mãe, repito, MÃE! — e, assim, ampará-la, soerguê-la, elevá-la ao panteão das urbes respeitáveis, sempre agiram de modo diverso, para não dizer contraproducente. Aracati, meus caros, é qual uma viúva cheia de fortuna, mas cercada de uma prole de estroinas, dissipadores, inconsequentes, que nada fazem senão corroer-lhe o patrimônio moral e histórico.
E, satisfeito com a própria metáfora, ajeitou novamente a cabeleira, como quem acaba de proferir uma sentença digna de figurar nos anais da retórica universal.
Castorina Pinto, vestida a rigor como mandava o convite, espremida numa cadeira desconfortável, já cansada do palavreado fastidioso e da verborragia que parecia não ter fim, perdeu a paciência. Endireitou-se, bufou e, sem se conter, deixou escapar, alto o bastante para mais de um ouvir:
— Eita que Fogo Eterno tá incendiado!!!
