Aracati

Thursday, 14 May 2026 09:17

CASTORINA PINTO | FOGO ETERNO

Written by
Rate this item
(6 votes)
CASTORINA PINTO | FOGO ETERNO Colagem Digital: Marciano Ponciano

O Círculo Operário São José, composto pelos laboriosos operários da Fábrica de Tecidos Santa Tereza, resolveu celebrar, com o maior aparato possível, o décimo aniversário de sua fundação. Para tão faustoso intento, organizou-se uma solenidade extensa, dessas que começam com o sol e só se dão por encerradas quando a noite já se instalou de vez. Pela manhã, missa e comunhão geral dos associados; à noite, uma magna sessão para coroar o auspicioso acontecimento.

Para abrilhantar ainda mais a festividade, convidaram um ilustre professor de Direito, homem tido e havido por seus dotes de inteligência e vasta cultura. Já aposentado do ofício, mas ainda de palavra fluente e gosto pela tribuna, o prestimoso convidado havia militado na política do Aracati e redondezas, chegando, não sem esforço e ambição, a ocupar altos cargos eletivos.

Sua figura chamava atenção de longe: a cabeleira vasta, de um tom avermelhado tão vivo que parecia arder, como se uma labareda lhe brotasse da cabeça. E, quando abria a boca, incendiava ainda mais. Naquela noite, inflamado pelos ventos revolucionários que sopraram em outubro de 1930, lançou-se em oratória arrebatada, dessas que não pedem licença para entrar no ouvido alheio.

O advogado, já tomado pelo fervor da própria importância, ergueu o queixo, ajeitou a cabeleira flamejante iniciou, com aquela cadência vívida de quem acredita estar prestando um serviço à humanidade:

— Aracati, minha gente culta e ilustrada, encontra-se, permitam-me o termo técnico, no seu muitíssimo de decadência, um estado tão lastimável que, se não fosse trágico, seria quase didático. Vai ela, paulatinamente, engolfando-se. Sim, engolfando-se! No abismo do mais completo aniquilamento moral, social e, ouso dizer, até atmosférico. Esta cidade, que viveu outrora fases agitadas, momentos gloriosos, dias de uma emotividade rejuvenescedora e vibrante, hoje se encontra reduzida a uma verdadeira química de águas estagnadas, uma solução morna e inativa, incapaz de qualquer efervescência cívica.

Fez uma pausa dramática, como quem espera aplausos por ter dito “química” em discurso público, e prosseguiu, ainda mais empolado:

— E seus filhos, esses mesmos que deveriam estar à frente do seu destino, em vez de tê-la como mãe — mãe, repito, MÃE! — e, assim, ampará-la, soerguê-la, elevá-la ao panteão das urbes respeitáveis, sempre agiram de modo diverso, para não dizer contraproducente. Aracati, meus caros, é qual uma viúva cheia de fortuna, mas cercada de uma prole de estroinas, dissipadores, inconsequentes, que nada fazem senão corroer-lhe o patrimônio moral e histórico.

E, satisfeito com a própria metáfora, ajeitou novamente a cabeleira, como quem acaba de proferir uma sentença digna de figurar nos anais da retórica universal.

Castorina Pinto, vestida a rigor como mandava o convite, espremida numa cadeira desconfortável, já cansada do palavreado fastidioso e da verborragia que parecia não ter fim, perdeu a paciência. Endireitou-se, bufou e, sem se conter, deixou escapar, alto o bastante para mais de um ouvir:

— Eita que Fogo Eterno tá incendiado!!!

Read 121 times Last modified on Thursday, 14 May 2026 09:31
Antero Pereira Filho

ANTERO PEREIRA FILHO, nasceu em Aracati-CE em 30 de novembro de 1946. Terceiro filho do casal Antero Pereira da Silva e Maria Bezerra da Silva, Antero cresceu na Terra dos Bons Ventos, onde foi alfabetizado pela professora Dona Preta, uma querida amiga da família. Estudou no Grupo Escolar Barão de Aracati até 1957 e, a partir de 1958, no Colégio Marista de Aracati, onde concluiu o Curso Ginasial.
Em 1974, Antero casou-se com Maria do Carmo Praça Pereira e juntos tiveram três filhos: Janaina Praça Pereira, Armando Pinto Praça Neto e Juliana Praça Pereira. Graduou-se em Ciências Econômicas pela URRN-RN em 1976 e desde então tem se destacado em sua carreira profissional.
Antero atuou como presidente do Instituto do Museu Jaguaribano em duas gestões (1976-1979/1982-1985) e foi secretário na gestão do prefeito Abelardo Gurgel Costa Lima Filho (1992-1996), responsável pela Secretaria de Indústria, Comércio, Turismo e Cultura.
Além de sua carreira profissional, Antero é conhecido por seus estudos sobre a história e a memória da cidade e do povo aracatiense, amplamente divulgados em crônicas e artigos publicados na imprensa local desde 1975. Em 2005, sua crônica "O Amor do Palhaço" foi adaptada para o cinema em um curta-metragem (15") com direção de seu filho, Armando Praça Neto.

Obra

Assim me Contaram. (1ª Edição 1996 e 2ª Edição 2015)
Histórias de Assombração do Aracati. Publicação do autor. (1ª Edição 2006 e 2ª Edição 2016)
Ponte Presidente Juscelino Kubitschek. (2009)
A Maçonaria em Aracati (1920-1949). (2010)
Aracati era assim... (2024)
Relíquias de uma campanha (2024)
Aracaty: 1862, cólera-morbo (2025)
Fatos e Acontecimentos Marcantes da História do Aracati. (Inédito)
Notícias do Povo Aracatiense (Inédito)

Login to post comments

Sobre nós

O Grupo Lua Cheia, com sede na cidade de Aracati-CE, é um coletivo de artistas formado em 1990 com o objetivo de fomentar, divulgar e pesquisar a arte e a cultura.