Aracati

Monday, 18 May 2026 16:24

CASTORINA PINTO | CANECO AMASSADO

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Charanga 24 de Maio (detalhe). Acervo: Antero Pereira Filho Charanga 24 de Maio (detalhe). Acervo: Antero Pereira Filho Colagem Digital: Marciano Ponciano

O contador de histórias cômicas e hilariantes Renato Sóldon, no formidável livro Verve Cearense, relata diversos apelidos considerados da lavra de Castorina Pinto.

Entre esses apelidados figurava Zé Levy, orador popular de Fortaleza, todo destrambelhado, corcunda, cheio de anfractuosidades no corpo e angulosidades na cara, uma figura tão torta quanto barulhenta. Veio ao Aracati a convite do coronel Alexanzito Costa Lima, que o trouxe para animar seus comícios, já que o próprio coronel, coitado, não nascera com o dom da falação.

Era tempo de comício de final de campanha, quando os ânimos se acirravam e os oradores se desdobravam para engrandecer seus candidatos em discursos envolventes, capazes de empolgar e levar a patuleia ao delírio.

Entre esses famosos oradores estava justamente Zé Levy, trazido de Fortaleza como a principal atração para o encerramento da campanha, segredo guardado até o último instante para ser a surpresa da noite, o coroamento de uma disputa vitoriosa.

Uma multidão postada em frente ao palacete do coronel Alexanzito Costa Lima, na antiga rua Conselheiro Liberato Barroso[1], o aplaudia sempre que ele surgia na sacada do sobrado, impecável no terno de linho branco modelo drapeado, sob gritos de viva, viva, viva.

A atração da noite foi então apoteoticamente introduzida ao centro do palanque ao som da Charanga 24 de Maio, que executava um dobrado retumbante, todo floreado por clarins.

Zé Levy, trepado num tamborete para se fazer mais visto, cumprimentou a multidão:

— Povo do Aracati, meus cumprimentos...

Castorina Pinto, que assistia ao comício da varanda do seu sobrado, quase vizinho ao do coronel, ao ouvir o anúncio do orador da noite, espichou o pescoço mordida de curiosidade, curiosidade que terminou num desalento:

— A atração é esse Caneco Amassado?!

 


[1] Atual rua Cel. Alexanzito (Rua Grande).

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Antero Pereira Filho

ANTERO PEREIRA FILHO, nasceu em Aracati-CE em 30 de novembro de 1946. Terceiro filho do casal Antero Pereira da Silva e Maria Bezerra da Silva, Antero cresceu na Terra dos Bons Ventos, onde foi alfabetizado pela professora Dona Preta, uma querida amiga da família. Estudou no Grupo Escolar Barão de Aracati até 1957 e, a partir de 1958, no Colégio Marista de Aracati, onde concluiu o Curso Ginasial.
Em 1974, Antero casou-se com Maria do Carmo Praça Pereira e juntos tiveram três filhos: Janaina Praça Pereira, Armando Pinto Praça Neto e Juliana Praça Pereira. Graduou-se em Ciências Econômicas pela URRN-RN em 1976 e desde então tem se destacado em sua carreira profissional.
Antero atuou como presidente do Instituto do Museu Jaguaribano em duas gestões (1976-1979/1982-1985) e foi secretário na gestão do prefeito Abelardo Gurgel Costa Lima Filho (1992-1996), responsável pela Secretaria de Indústria, Comércio, Turismo e Cultura.
Além de sua carreira profissional, Antero é conhecido por seus estudos sobre a história e a memória da cidade e do povo aracatiense, amplamente divulgados em crônicas e artigos publicados na imprensa local desde 1975. Em 2005, sua crônica "O Amor do Palhaço" foi adaptada para o cinema em um curta-metragem (15") com direção de seu filho, Armando Praça Neto.

Obra

Assim me Contaram. (1ª Edição 1996 e 2ª Edição 2015)
Histórias de Assombração do Aracati. Publicação do autor. (1ª Edição 2006 e 2ª Edição 2016)
Ponte Presidente Juscelino Kubitschek. (2009)
A Maçonaria em Aracati (1920-1949). (2010)
Aracati era assim... (2024)
Relíquias de uma campanha (2024)
Aracaty: 1862, cólera-morbo (2025)
Fatos e Acontecimentos Marcantes da História do Aracati. (Inédito)
Notícias do Povo Aracatiense (Inédito)

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O Grupo Lua Cheia, com sede na cidade de Aracati-CE, é um coletivo de artistas formado em 1990 com o objetivo de fomentar, divulgar e pesquisar a arte e a cultura.